Com mandíbulas poderosas e devoção em abastecer o ninho, servir a rainha e se multiplicar, matando e carregando, as formigas estavam causando problemas na vida desse homem. Havia comprado a casa para aproveitar, ler a sombra da quaresmeira e cheirar suas flores, e agora não havia sobrado nada para cheirar ou se esconder do sol.
- Siga até a entrada do ninho com isso, enfie a mangueira no fundo e borrife até ficar cansado.
- Mas tome cuidado! - advertiu o vendedor.
- É muito venenoso, é?
- Sim, claro que é, mas não é isso. Essas formigas são uns demônios. Já viu a cara delas aumentada no telescópio? Cortam seu pau fora se der bobeira.
O menino com down ergueu o dedo do meio para mostrar a ponta amputada.
- Foi uma formiga que fez aquilo?
- Ele só quer dar um exemplo de algo cortado.
Depois de considerar os riscos, o homem subiu morro atrás das formigas, com a certeza de que era impossível uma delas entrar na sua cueca asa delta. Em pouco tempo ficou impressionado com a distância. Começou a sentir dor nos tornozelos e músculos das pernas, não acostumados a muito esforço.
Percebia-se que não havia limite de tamanho para as formigas, porque podiam matar qualquer coisas e cortar em pedaços menores. Elas subiam e desciam, desviando de objetos no caminho, desaparecendo debaixo de galhos e reaparecendo do outro lado. Carregavam pedacinhos coloridos da vegetação, insetos mortos ou agonizando, e tudo o que as agradasse.
Em determinado ponto a trilha das formigas se uniu a três outras, formando uma grande estrada de formigas que desaparecia do outro lado de uma cerca de arame farpado.
Uma placa bem grande dizia:
ÁREA DE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL
ENTRADA PROIBIDA
Era uma péssima ideia, ainda assim ele continuou. Descansou um pouco em um tronco caído, conseguindo ouvir o som das formigas na trilha. Era como um córrego. Imaginou que se caísse no meio delas, seria esmigalhado e levado para o ninho.
Borrifou um pouco do veneno em cima das formigas.
- São apenas formigas...
Seguiu em frente, um pouco melhor da dor nos tornozelos, pensando que no futuro entenderia a importância daquilo. Agora era um homem do campo e tinha que cuidar do que era seu. Aprender a subjugar a mãe natureza.
Um som veio do meio das árvores. Não podia ser nenhum pássaro. Era mais parecido com um canto erudito, bem ali no meio do mato. Seguiu o cântico como se estivesse em uma história de fantasia, percebendo que as formigas faziam o mesmo.
O corpo que encontrou estava deitado de costas sobre a relva. Usava um vestido gasto com estampas de flores desbotadas e calçava botas velhas de cano longo. O caminho das formigas desaparecia dentro do vestido. Diria que era óbvio que se tratava de uma boneca, não fosse seu realismo visceral e som que ela fazia.
Chegou mais perto, relutante quando próximo do rosto. Tinha medo que fosse mesmo o cadáver de uma criança, que pudesse estar desfigurado... Imaginou as formigas atravessando por dentro do corpo e saindo pela garganta, pelo nariz e pelas cavidades oculares do outro lado...
Deixou as solas dos seus tênis confortáveis se assentarem com calma na areia. Ergueu um galho com cuidado para poder ver melhor. Era uma criança rechonchuda com uma pele tão branca que a fazia parecer uma grande boneca de de porcelana abandonada.
Os raios de sol atravessavam as folhas como se fossem uma peneira, deixando pontinhos de luz no rosto da menina. Ela encarava as folhas das árvores e sua boca não parava de se movimentar. Se perguntou para onde todas as formigas estavam indo.
Aproximava-se mais confiante, quando foi encarado por aqueles grandes olhos abaixo. O olhar fez com que se sentir como um menino flagrado pela mãe, andando com os calçados sujos no chão recém encerado. E depois foi como se tivesse acionado uma grande sirene de catástrofe nuclear. O grito da menina ecoou pelas árvores, o deixando atordoado. Quando finalmente ela calou a boca foi para soltar uma torrente de pontinhos escuros pela boca.
Estava coberto de formigas assassinas.
Desistiu de tentar alcançar o gatilho do borrifador de veneno. Correu o máximo que pode, quase perfurando os olhos nos galhos espinhentos e tropeçando no caminho, rasgando as roupas na cerca ao atravessá-la ainda correndo.
Morro acima e morro abaixo, foi estapeando seu corpo cheio de formigas que o mordiam, tão forte que às vezes caía. Enquanto corria desnorteado, seu borrifador desapareceu debaixo do vestido.
Começou a planejar espalhar a notícia. A localização do ninho seria divulgada. Voltaria acompanhado de mais pessoas e afogaria aquela menina como faziam com as bruxas na Inquisição.
Parou quando viu o menino brincando com um cepo de madeira. Os dois trocaram olhares, e o menino apontou com o dedo amputado. Foi então que viu a mancha na calça e percebeu que estava sem o pênis.
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