Sob o sol impassível do verão, ele marretava a cunha na rocha. A pele alva quanto leite, enegrecida feito barro pelos anos de profissão. Seguia como uma máquina, sem cérebro, na posição de lótus, parecendo sereno como Gandhi. Já era o terceiro dia que trabalhava naquela rocha de granito. Seguia uma tradição: seu pai, o pai de seu pai, o bisavô, e por aí vai, foram todos graniteiros como ele.
Como sempre, não havia resultado nenhum considerável em seu trabalho naquelas pimeiras horas. Seus músculos pareciam tentar lhe dizer algo, enquanto as mãos calejadas seguiam golpeando. Era provavelmente "Pare", mas ele continuava, como uma maldição.
– Você quer suco? – disse a voz. Pensou que vinha de dentro, mas ao se virar viu o menino delgado, com fios de cabelo que pareciam barba de milho, segurando uma jarra suada com um líquido escuro gelado dentro e um copo de vidro.
– Faria bem – ele respondeu. “Faria muito bem”. Seu suor denso como óleo parado no peito sugado.
Ao longe, o que parecia uma menina lhe sorriu de cima da plataforma. Ergueu o copo cheio para ela e depois bebeu tudo. Era muito doce e tinha algum sabor de uva.
A mulher e o menino observaram, sentados na sombra do pequeno telhado. Ela esperava com um cigarro e os pés descalços numa cadeira de madeira. Tinha no olhar uma espécie de sereno conformismo com o que via,
Seu nome era Maitê, e ela estava constipada há um mês quando pediu por uma cura. Seus intestinos pareciam quebrados. A necessidade de se alimentar era uma tortura biológica, fazendo-a acumular, a cada dia, mais detritos em seu interior, inchando seu ventre como se estivesse grávida.
Tinha repulsa do próprio corpo, sentindo-se uma fossa séptica ambulante.
Mas as coisas mudaram uma noite, quando, sentada de vestido na "pedra" — como Maitê chamava a rocha ígnea de toneladas — e sentindo em seu ânus o calor absorvido pelo dia de exposição à radiação do sol, ela implorou em voz alta por um expurgo.
Apenas as estrelas e a lua, perdidas em seu cotidiano, foram testemunhas do que aconteceu ali. Quando o latejar começou e Maitê sentiu os movimentos em seus intestino grosso, de algo vivo como um peixe se debatendo num balde, lutando para escapar. E depois de tudo, ela nunca mais precisou duvidar de que o que entrasse por um lado sairia pelo outro.
Foi uma surpresa para seu marido quando chegou do trabalho e se deparou com seu rosto parecendo uma máscara de sofrimento pela atividade extenuante, mas logo Maitê demonstrou estar aliviada e feliz, segurando um bebê fedorento numa toalha.
Os dois já haviam pensado em ter um filho, mas, mesmo com toda a falta de cautela, nunca tinha acontecido. Parecia impossível explicar como aquilo ocorrera exatamente, sendo que a jovem mãe também nada entendia, além da definição de "milagre"
Depois disso, era compreensível que Maitê jamais deixasse que destruíssem sua pedra. E se enviassem outros graniteiros contra seu novo Deus, ela também os envenenaria sem hesitação.
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