quarta-feira, 5 de março de 2025

OLD BEER

            Eduardo tentava dizer que foi a lagartixa a culpada — tudo o que se lembrava. Dela grudada no vidro dianteiro, resistindo à alta velocidade do carro, roubando toda a sua atenção do trânsito. Era quase esverdeada, escura, com olhos amarelos e escamas arrepiadas. Nunca tinha visto coisa igual. Fez ele lembrar das aulas de biologia do 3° ano e, seguidamente, do que seu padrasto lhe dizia sobre os negros não conseguirem nadar por terem excesso de músculos nas pernas.

            Enquanto tentava se explicar, bastante nervoso, começava a ressentir-se que passava por louco. O ar prostrado,  os móveis velhos descascando, típicos de uma repartição pública malcuidada, e a sensação de obstrução documental aumentavam sua ansiedade. Mas talvez o pior fossem os olhares das outras pessoas. 

            "Preciso muito me esforçar para mostrar a eles que sou uma pessoa boa", ele pensou. "Que não preciso ser tratado com essa indiferença negativa!"

            — Mas então, eu machuquei alguém? — ele perguntou.

            O homem do outro lado assentiu com sua cabeça careca e sorriu. Vestia-se como um esportista de fim de semana, com uma camiseta de poliéster e shorts encardidos apertados no peso mal distribuído do corpo. Calçava apenas um dos tênis e, no outro pé, uma meia encardida.

            — O que eu falei de engraçado?

            “Calma!”, Eduardo pensou. Tinha que se controlar e não ficar nervoso; achava que esse era o truque. Pensou em todas as vezes em que se safou de situações como aquela, quando foi detido por dirigir embriagado. “E, pelo amor de Deus, eu nem bebi tanto”, ele concluiu, vendo a maneira clara como seus pensamentos fluíam.

            — Você não lembra de mim, de verdade, não é? O cara que você atropelou... em 2012 — disse o corredor. 

            — 3 de janeiro de 2012. Aquele foi um ano apocalíptico — ele continuou. — Segundo o calendário maia, sei lá, seria o ano do fim do mundo. Garanto que era uma ótima desculpa para encher a cara todos os dias, sem culpa. Eu queria entrar em forma.

            Não lembrava de nenhum acidente ter acontecido cinco anos atrás. Muito menos entendia que relação isso teria com sua situação no momento.

            — Desculpe, cupimcha, mas você é que andou bebendo. Sou um excelente motorista. Nunca atropelei ninguém na vida. 

            De repente a lembrança de estar parado sobre a faixa amarela quando um tênis branco de corrida despencou do céu no silêncio da noite lhe surgiu.

            Uma memória fabricada, tinha certeza.

            — É, pode ser que não lembre mesmo — o outro continuou. — O etanol afeta neurotransmissores como o GABA (que inibe a atividade cerebral) e o glutamato (que estimula a comunicação entre os neurônios).

            — Você é médico?

            — Gosto de ler.

            — Se te atropelei em 2012, não acha muito tarde para fazer caso disso!?

        — Já ouviu o ditado “paciência e canja de galinha nunca são demais”?

            — Esse não — Eduardo respondeu, sentindo o incomodo em seu estômago, como se um caroço de abacate tivesse acabado de se formar. — E você já ouviu o ditado “Água mole em pedra dura, tanto bate até que acaba a paciência”?

            Estava cansado de esperar. Sentindo-se mais seguro, achava que havia entendido um pouco melhor sua situação: estavam tão doidos para enquadrá-lo por algo que haviam desencavado um caso de 2012!

            — Se ninguém vier responder logo algumas perguntas, eu vou embora daqui! 

            Ninguém respondeu.

            — Que tipo de atendimento de delegacia é esse aqui?! 

            Do outro lado do biombo de vidro, atrás de um computador, uma funcionária de cabelos amarelos e meia-idade o encarava. Seus lábios finos e vermelhos de batom, no bico involuntário que fazia, lembraram a ele um apito de carnaval.

            A mulher apontou para algo às suas costas. Ao virar-se, viu um folheto colorido grudado no quadro de avisos. Fez um sinal inquisitivo para a mulher, que respondeu com um gesto afirmativo quase maternal.

            Com um pouco de esforço ele ergueu o braço esquerdo e arrancou o folheto para ler.

            O folheto começava:


            VOCÊ ESTÁ AQUI PORQUE AINDA HÁ ALGO A PROVAR...


            Foi quando a porta se abriu, e aquela pessoa, com a cabeça coberta de enormes moscas varejeiras cromadas em azul-esverdeado saiu mancando dela. 

            Era a visão mais aflitiva que Eduardo já tivera na vida. Em sua companhia estavam dois homens com distintivos que cintilavam tanto quanto os insetos borbulhantes naquele rosto. Com a mão retorcida e ensanguentada, a pessoa, um homem de estatura baixa, aida menor por causa de uma corcunda, abanou os insetos, descobrindo a rachadura entre os olhos inchados de seu rosto desfigurado.

            As moscas voltaram num instante ao lugar, escondendo de novo a rachadura.

            O homem emitiu um assovio entre os insetos e ergueu o braço na jaqueta de couro marrom, apontando para Eduardo no banco. Seu reflexo foi balançar a cabeça em negativa àquele dedo.

            De onde estava, podia ver o interior da sala escura. Haviam dois pontos de luz amarelados e Eduardo podia ouvir como se algo grande respirasse lá no fundo.

            — Por favor, queira nos acompanhar, senhor Eduardo Delis Barbosa — disse um dos agentes, um homem negro com tranças nagô.

            Eles o ergueram pelos braço – seu corpo, uma espécie de massa desconjuntada, alquebrada, envolta em tecido ensanguentado, com algumas partes dependuradas em fiapos de carne e nervos... – Não sabia o que dizer e como resistir, ainda pensando nas moscas. 

            Do lado de fora, o homem esperava resuluto Ele juntou o folheto do chão. Com uma ilustração estilo cartoon, de entidades cobertas por lençóis brancos, o folheto na frente:


VOCÊ ESTÁ AQUI PORQUE AINDA TEM ALGO A PROVAR

O Purgatório não é um castigo, mas uma segunda chance. Como você age neste limbo determinará seu destino final.

Aproveite esta oportunidade!


            Quando acordou, o sol raiva no horizonte, podendo ser visto com previlégio de onde estava, um posto de combustível fechado na cidade. Foi um alívio saber que se encontrava inteiro, não no purgatório, mas tirando um dos seus cochilos estratégico. Sentia o gosto do azedo de cerveja velha na boca. Mesmo depois de se hidratar e lavar o rosto na torneira do jardim ao lado do prédio,  Eduardo conservava a sensação de irrealidade naquela madrugada.

            – Nunca mais... – disse ele – Nunca mais na vida!

           Se sentiu deprimido por ser aquele ainda os primeiros minutos da sua jornada de sobriedade. Voltou para o carro, bateu a porta e levantou o banco. Quando se voltou mais uma vez para o horizonte, viu a lagartixa do outro lado do vidro da janela do carona. Agora sua barriga estava estufada com uma forma escura que se remexia em seu interior semi-transparente.

            – Dirija – disse a criatura de olhos amarelos.

            E ele dirigiu. Ainda com o gosto de cerveja velha na boca.  


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