Os médicos disseram que a menina não possuía tendência à violência. Garantiram que o que ocorrera fora um surto paranoide provocado pelo ambiente em que ela vivia. Tomando os remédios nos horários certos, com amor, atenção apropriada e carinho — além de consultas salgadas toda semana — coisas como objetos inanimados falantes não voltariam a acontecer.
“O quadro na parede disse para eu matar minha mãe.”
Havia usado um tesourão de poda para fazer isso no banheiro da suíte. A mãe estava caída seminua no piso e com pernas enlaçando o vaso sanitário, numa poça enorme de sangue.
Mas o que ela queria?, as pessoas pensavam. Mantinha a criança presa, acorrentada num tonel plástico...
— Ei... pequenina... olha pra mim. Tá tudo bem agora. Tá mesmo. Ninguém vai te colocar de volta lá dentro. Nunca mais. Você não precisa mais se esconder. Nem se defender. Eu sei que... eu sei que foi horrível. Mas escuta, você não tá mais sozinha.
Esse era o tio.
Estava muito feliz com a irmã morta — ninguém o condenaria se dissesse isso em voz alta. Mas estava feliz porque algo havia acontecido que o transformara no descendente mais idôneo. Se seus pais estivessem vivos, agora ele seria o filho preferido. Afinal, o que eram um simples alcoolismo, o fracasso acadêmico e a inconstância profissional em vista do que sua irmã fazia com a própria filha?
Não tinha como saber se a sobrinha estava o escutando enquanto se abria. Sentada à sua frente, de cabeça baixa, a menina de 13 anos comia a gororoba do hospital psiquiátrico, que ao olhos dele se parecia muito com restos retirados do ralo da pia da cozinha. Todas as unhas das mãos haviam sido arrancadas.
“Ela passou por coisa demais...”, os médicos repetiam até anojá-lo. Queriam mantê-la ali para um tratamento mais concentrado. Mas o tio não tinha paciência para nada daquilo. Preferia se deixar levar, sem todo o dispêndio físico e mental, como fazia com suas hemorroidas.
Depois que o período obrigatório de sete meses de internação terminou, levou a sobrinha direto dali com um monte de receituários. Mostrou a casa para ela. Seu quarto espaçoso no fim do corredor, com paredes verde-menta, roupas novas, televisão, um quadro de acrílico com a lua em fases – nada de palhaços – e a vista para um jacarandá-mimoso cheio de flores roxas.
Ela andava estranho. Os médicos a haviam a diagnosticado com genum varum (pernas arqueadas), quando os os joelhos se afastam enquanto os tornozelos se tocam. Agravado por posturas em que a criança permaneceu sentada com as pernas abertas ou tensionadas por muito tempo.
Fez a sobrinha arrastar os pés pelo assoalho em frente à televisão com uma reprise *The Vampire Diaries*.
— Vem cá, senta aqui pertinho de mim... Tem uma coisa que eu preciso te dizer. Uma coisa boa, prometo. A partir de agora, você é minha filha.
A menina ainda não falava nada. Pensou que talvez fosse por causa dos remédios tarja preta.
— Tá na hora do remedinho mágico. Eles ajudam as pessoas que passaram por coisas que não deveriam. Tome esse grandão para colocar as ideias em ordem e superar pensamentos ruins, e o menorzinho... é para apagar feito uma vela e ir dormir com os anjos!
Tinha aprendido a falar de maneira afetiva no Curso de Preparo Psicossocial e Jurídico. Achava infantil, porque sua sobrinha já devia cultivar uma touceira de pelos castanhos lá embaixo e, logo, começaria a sangrar pela vagina todo mês — o que deixava para ser problema das cuidadora.
Ao fazer tomar os remédios com um copo de suco de laranja, percebeu como ela tinha uma boca bonita. Lábios volumosos de uma negra em uma figura feminina pálida e cheia de sardas. Eram de um rosa delicado, que fazia com que aparentasse ainda mais vulnerabilidade. Quando os olhos dela o encararam na cozinha, negros como duas jabuticabas, com seu rosto de jovem felina assustada, sentiu algo instintivo mover-se em sua cueca.
Deitou-se na cama, em seu pijama escuro de cetim com estampas de formas geométricas coloridas. Espiou a televisão e viu um crocodilo-do-Nilo relaxar na água estagnada. Algum pensamento fez com que o predador pré-histórico saísse para caminhar pela areia quente.
Sorriu.
Lembrou que dos 16 aos 20 e poucos, havia feito algumas tentativa de suicídio e, até aquele momento, não sabia o que havia perdido.
Olhou no celular e a viu deitada, solene, de bruços em sua cama, vestindo o pijama azul-céu que lhe comprara. Seus longos cabelos ondulados estavam espalhados por toda parte e cobriam seu rosto pequeno na luz infravermelha da câmera de vigilância. Pensou que podia ir checar se respirava, e a imagem daquilo o fez se sentir meio pervertido.
O tio masturbou-se em uma das meias soquete. Tentou não terminar pensando na sobrinha, porque não queria se sentir um pedófilo, e nos últimos segundos gozou depressa em um limbo pouco satisfatório e estranho com a imagem pipocada do Papa Francisco.
O que faria alguém fazer aquilo com uma criança? Sua irmã, por mais conflituosa, desalmada e inflexível que um dia foi, devia sentir o quão reprovável era aquilo que fazia com outro ser-humano, carne do seu sangue…
Lembrou que ela estava uma “pilha de nervos” a última vez que a vira e lembrou que sempre gostou dessa expressão. Imaginava uma pilha de nervos humanos amontoados.
Por garantia, havia trancado a porta do quarto. Não demorou para chegar a fase REM do sono.
No sonho que teve, estava sentado à mesa do café da manhã. Havia um arranjo floral com flores frescas — lírios e rosas brancas, seu pão de nozes, um cesto com frutas, manteiga gourmet e outras coisas indiscerníveis para ele. Pode até sentir o aroma do café saindo da cafeteira italiana.
Começou a descascar uma das bananas do cesto de frutas e a devorá-la com gosto. Era uma fruta enorme e parecia não ter fim. A polpa escorria pelo canto da boca e sentia-se bem. Tentar devorar a fruta completamente parecia impossível e, ao deixá-la de lado no prato, percebeu uma tonalidade que se destacava sobre o tampo de mármore da mesa. Uma linha escura desenhada em baixo-relevo.
Afastou o pires com a xícara ainda vazia e ergueu a toalha para analisar melhor. Era um contorno que se alongava de maneira metódica, formando uma cruz espinhosa no meio, que, do seu ponto de vista, estava de cabeça para baixo. Continuou a tirar as coisas, procurando por mais. Aproximou os olhos e, sob o reflexo da luz antinatural, pôde ver inscrições: o nome e as datas de nascimento e falecimento.
Estava fazendo o desjejum sobre a tampa do jazigo da irmã.
Despertou com o coração batendo forte, e sua reação quase imediata foi olhar as câmeras de vigilância pelo celular. A sobrinha dormia descoberta, como um bebê drogado. Percebeu que estava molhado e, num primeiro instante, pensou ser suor. Percebeu o que realmente aconteceu ao cheirar a mancha enorme no lençol de luxo novo.
Havia urinado na cama, como não fazia há muito tempo. Ficou mais calmo depois de se banhar e trocar o pijama. Depois disso, pensou que devia agir como um adulto — para compensar — e se sentiu orgulhoso e estável ao lembrar da posição de guardião legal que havia sido agraciado. Caminhou pelo corredor silencioso e bem iluminado pelas arandelas de parede modernas. O piso de madeira encerada recém instalado estalava suavemente sob seus passos. Sentia-se quase totalmente acostumado aquela amplitude em comparação a seu antigo apartamento. A porta branca que encarava no final do corredor era a da sobrinha.
A menina seguia descoberta, quase na mesma posição, de pernas abertas, com um dos pés quase sem meia sobre o edredom colorido. Ele aproximou-se com cuidado, sentindo seu coração bater a mil por tanta vulnerabilidade. Seu espírito parecia vibrar sobre a pele, e os testículos formigavam no calção modal como uma doença. Uma voz em sua cabeça perguntou quanto tempo suportaria aquilo.
Puxou as cobertas até o pescoço da sombrinha, voltando a cobri-la com o carinho. Afastou seus cabelos ondulados e, ao expor a testa espinhenta da jovem, se curvou para beijá-la lentamente na bochecha delgada.
Foi como acionar uma armadilha ao pisar.
O golpe veio rápido e certeiro, de baixo para cima, desenhando um arco de respingos de sangue no ar. Não houve dor nos primeiros instantes, mesmo sem o choque da adrenalina, pois a surpresa o anestesiara, apenas o questionamento de onde aquela putinha havia arranjado um estilete?
Tentou conter o sangramento com ambas as mãos. Não parecia possível e logo sua pernas começaram a perder as forças, parecendo cada vez mais com pernas de borracha. Tombou no carpete, no meio do quarto.
– Sua porca!.. – foi o que disse, com a voz rouca por causa da lesão dos nervos da laringe.
– Porco – devolveu a menina imediatamente, para sua surpresa. Sua voz era estridente e de registro glótico.
Ela jogou as cobertas para longe e ficou de pé ao lado da cama. Apesar de quão afiado pareceu, não era um estilete que usara, mas uma lasca de aproximadamente quinze centímetros de vidro, provavelmente retirado de uma moldura das fotografias em preto e branco de suas viagens, emolduradas no corredor, ele pensou. Lembrou da irmã dizendo o quanto eram kitsch. As mãos da menina sangravam pela firmeza que segurava o vidro e o sangue pingava por entre seus dedos ossudos.
— A terapeuta familiar disse que vamos aprender a conviver juntos... — chiou o tio, tentando trazer a calma. — A gente só precisa de tempo... tempo pra se conhecer de verdade, só isso... Au... Au...
A sobrinha começou a perfurá-lo, de todos os lados. Quando o tio começou a rolar pelo quarto tentando se proteger, ela subiu em suas costas e começou a golpear seu ânus com todas as forças, soltando uma risada arfante.
A dor era excruciante. No cérebro do homem, certa luz oscilava como uma sirene de ambulância. Sentia as ferroadas dolorosas provocados pelos golpes rompantes daquele objeto rombudo na carne desesperada e os estirões nos músculos — até o vidro se quebrar em seu corpo.
Era impossível raciocinar para sair daquela cenário. Em um momento, comprimidos brancos, semi-derretidos, jogados debaixo da cama, estavam diante de seus olhos.
– Minha filha... Minha filha... Minha filha... – ele balbuciou, como se houvesse verdade nisso e fosse fazer ela buscar ajuda.
Aurora já havia partido pela janela, agarrando-se à árvore como uma macaca alucinada de pernas tortas. Ela desapareceu na noite congelante daquele bairro nobre, para nunca mais ser encontrada com vida.
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