domingo, 23 de novembro de 2025

TUDO SE DOBRA

            Oliver começou a sentir fome. A água havia acabado há algumas horas e o que sobrava do pacote de amendoins japoneses também.

            Ainda movendo-se pela inércia na órbita baixa do planeta, ele via, já entediado, através da janelinha, o imenso corpo vivo suspenso na escuridão. Massas de nuvens rodopiavam suavemente em espirais brancas, densas como algodão e vastas quanto continentes, e os pedaços de terra eram iguais a antigas pinturas craqueladas refletindo a luz do Sol que passava. Despersonalizado como nunca, no silêncio total, Oliver abraçava as pernas em posição embrionária, sem enxergar sinal de vida por onde passava, algum lugar sobre a Europa Meridional.

            Sentiu sua pequena nave caseira começar a se arrastar pela atmosfera. Ela perdia órbita e logo seria levado a um processo brutal de destruição na reentrada, quebrando-se no ar a oito quilômetros por segundo e derretendo a três mil graus Celsius, virando poeira, plasma e partículas metálicas antes de chegar no chão. Acomodado em parte de um assento de uma Kombi, ele tentava relaxar para evitar as câimbras e aproveitar com o máximo de calma cada respiração. Muito provavelmente, o processo de destruição seria tão violento que Oliver não sentiria dor. Tentava pensar positivo.

            Não foi difícil para ele fazer tudo aquilo. E ele nem tinha o ensino médio completo; apenas era um cara que, desde pequeno, se interessava — daquelas crianças que desmontam tudo, mas que, diferente da maioria delas, conseguem montar de novo e também consertar coisas. Próximo do seu aniversário de dezoito anos, sem a ajuda de ninguém, Oliver resolveu começar seu maior projeto da vida até então: a construção de um veículo lançador espacial.

            Foram necessários seis anos para construir a cápsula e o foguete, que chamou de Deise. A coisa não era seu sonho de infância nem nada do tipo; ela apenas aconteceu na sua vida, de repente. Como a criação de um conto literário, decolou com centenas de litros de hidrazina (N₂H₄) acumulados durante dois anos de compras clandestinas. Ele decolou na primavera e cruzou a Linha de Kármán em menos de seis minutos, contados em seu cronômetro digital da Shopee.

            Ninguém acreditava na sua capacidade para aquilo — na verdade, não se importavam — e Oliver sempre repetia que não estava nem aí para ninguém. Ele cresceu cercado pelas montanhas de sucata de sua família acumuladora: geladeiras antigas, canos, restos de bicicletas, chapas de ferro retorcidas, molas enferrujadas, restos de motores, cabos elétricos, calotas velhas de carro, mangueiras plásticas endurecidas, baterias de carro vazando… Todo tipo de coisa quebrada, distante das contrapartes, desfazendo-se no tempo, na chuva, mortas e permanecendo, e tentou usar tudo no seu projeto de chegar até o espaço.

            Tudo era serenidade, até que Oliver começou a entrar em desespero. Pior do que a depressão da conquista, era a percepção evidente de estar caindo para a morte. Queria que pelo menos sua namorada soubesse que ele tinha conseguido.

            Sua namorada estava internada em um hospital psiquiátrico havia alguns meses. Ele ficou sabendo quando ligou para a casa dela, depois de ficarem semanas sem trocar mensagens. Ela teve um surto psicótico, os pais disseram. Algo que os médicos chamaram de Delírio Paranoico de Infestação com Temática Sexual. Perguntou quando ela estaria de volta e não souberam dizer. Talvez no Natal. Quando a mãe perguntou quem falava, ele desligou.

            A nave começou a esquentar e os parafusos estavam se rompendo. Bolhas se formaram em sua pele e não conseguia respirar. Tudo foi tão rápido que percebeu o primeiro sinal de dor apenas depois dos olhos começarem a escorrer pelas bochechas assadas. Oliver se contraiu como uma sacola plástica no fogo e de repente tudo explodiu em pedaços...

            As notícias repercutiriam, pensou no último segundo, seu cérebro borbulhando na caixa craniana enegrecida. Seu primo viu o que ele fez e, com certeza, a SSN (Rede de Vigilância Espacial dos EUA) também. Seria conhecido para sempre como o homem que fez um foguete e foi ao espaço usando apenas lixo e inteligência.

            Lixo e inteligência.

            Mas primeiras notícias que saíram foram sobre a queda de um dos seus boosters laterais, motores auxiliares do foguete, sobre uma creche em Valparaíso, no Chile, matando cinco professoras, 21 crianças e ferindo outras mais.

            Naquele dia Paola acordou tranquila, com sua cabeça raspada de modo desordenado por ela mesma, parecendo a boneca remelenta de uma criança bem inventiva.

            Ela bocejou e sorriu com seus dentes amarelados e de olhos ainda fechados, com o sangue repleto de antipsicóticos e antidepressivos. Havia tido um sonho estranho em que Oliver a levava para visitar um monastério budista e, caminhando pelos pátios de pedra, os dois falavam sobre política e circuitos integrados flip-flops. 

            Paola se cobriu até o pescoço com a limpíssima coberta branca do sanatório particular em que estava, sentindo o gostoso cheiro asséptico de produto de limpeza industrial no tecido.

            Do outro lado do vidro da janela, um minúsculo brilho no céu.


quarta-feira, 1 de outubro de 2025

OS MANSOS HERDARÃO A TERRA

            Estava amuada, repousando em um mocho no canto entre as prateleiras, pensando por que estavam fazendo aquilo com ela.

            Nos últimos dias, a empresa havia adotado o uso obrigatório dos uniformes e agora, depois de tanto tempo, ela tinha que usar aquela calça legging azul que ressaltava o imenso acúmulo de gordura acima da sua bunda encolhida. Estava deprimida, ainda mais do que o normal, pensando em tomar alguma atitude no caminho para casa, talvez jogando sua scooter debaixo do primeiro caminhão que encontrasse na contramão.

            Na escola a chamavam de Betty, a Feia — da versão original, mexicana, a mais feia de todas. Até suas duas únicas amigas, a epilética e a de cara de avestruz, riam dessa piada. Além disso, como sua mãe não tinha muito dinheiro para roupas e ela estava em uma fase de crescimento avançado, principalmente para os lados, era famosa por deixar o cofrinho à mostra quando vestia suas calças baratas — e, às vezes, os meninos traziam moedas para depositar ali.

            Como quem ri de si mesmo nunca precisa de motivo para sorrir, ela ria, e todos a consideravam bem legal na oitava série.

            Trinta e três anos, solteira, sem amigos, morando com a mãe, sem formação profissional alguma ou planos de um futuro que a fizesse esquecer os traumas que carregava de uma adolescência de humilhações.

            E ainda virgem.

            Sua rotina era chegar em casa, conversar com a mãe, professora de literatura aposentada, e assistir reality shows enquanto comiam e fumavam sem parar na frente da televisão.

            Tentava se convencer de que não precisava de mais nada, porque tudo o que a incomodava era não ser como os outros. Que, na verdade, eles tinham problemas bem maiores do que os dela: relacionamentos, disputas de ego, festas, ter que sair com amigos e se preocupar com namorados e afins. Pensava em como tinha sorte de ter uma verdadeira melhor amiga sempre ao seu lado.

            Mas então… é mesmo isso a vida.

            O lugar era cheio de placas de “Não Sentar Neste Local”. Ela acendeu um cigarro e sentou à sombra daquela coisa sem folhas que mal a protegia do sol. Pesquisou sobre a nova medicação. AstraZeneca. Seu nome era Stabilium, um ansiolítico/antidepressivo. Encontrou o depoimento de uma mulher no YouTube, que havia terminado um relacionamento de cinco anos e garantia não sentir nada graças ao remédio.

            “Não sinto mais nenhum vazio interior, baixa autoestima, irritação… Ele me deu um brilho no olhar, um gás, um up; o sol brilha para mim. Meu corpo está leve e parece que nada mais pode me machucar… Minha vida está mais colorida, agora. A vida tem sentido porque eu sei que posso…”

            Em casa, o espelho sujo refletia sua expressão melancólica, de olhos caídos, e todo o seu corpo flácido, nu.

            Por que fazia esse tipo de coisa consigo mesma? A barriga volumosa pela semana de constipação, sua descoloração nada saudável da pele, os grandes peitos caídos parados no meio do tronco, como se fossem outra coisa, e os mamilos escuros como olhos mortos; e o cheiro de peixe estragado que subia do meio das suas pernas.

            “Não é assim que devem ser.”

            Uma corcunda em formação pela má postura.

            “Eu devia me matar”, pensou pela milésima vez na vida.

            Mas, em vez de se pendurar pelo pescoço no lastro da janela do quarto, Ellen engoliu um dos comprimidos controlados da caixa de remédio que afanara no trabalho e foi ficar com sua mãe, de pernas varicosas, fumando no sofá.

            O psicólogo da escola já havia dito à sua mãe que seria recomendável que ela fizesse algumas consultas com outro profissional. Em casa, Ellen se trancava no banheiro para chorar pela manhã e se cortar com uma tesoura. Mesmo a mãe já havia comentado várias vezes a ideia de lhe dar “remedinhos” para melhorar.

            Naquela noite, Ellen dormiu como um bebê e sonhou com Jesus Cristo. Na imagem do ator britânico Robert Powell, Cristo lhe disse que “Os mansos herdarão a Terra”.

            Era difícil para ela dizer se havia algum efeito por causa do medicamento. Além de estar lavando os cabelos com mais frequência e de ter esvaziado seus intestinos naquela semana, numa torrente efervescente de dejetos amarelos, o que a fizera se sentir bem-disposta, não havia evidências claras dos efeitos do Stabilium.

            Os dias da semana passaram mais rápido, e Ellen não pensou em suicídio. Podia ser algum efeito placebo, mas, se não fosse, havia encontrado uma maneira de seguir em frente. Começou a dar bom-dia e a se despedir das pessoas antes e depois de bater seu ponto e passou a pensar mais a respeito da religião em que fora batizada: o catolicismo romano.

            Chegando em casa, ela se sentou e assistiu a um episódio de Botched com a mãe.

            “Faça algo hoje pelo qual o seu eu do futuro ficará orgulhoso”, disse a mulher que fizera mais de 350 cirurgias plásticas na vida e agora precisava retirar selante industrial do rosto e dos quadris.

            Ellen começou a treinar nos intervalos e percebeu o quanto a necessidade de usar o mocho diminuíra. Ela se questionava se Jesus Cristo era a resposta para tudo aquilo, ou se era o aumento da disponibilidade de neurotransmissores falando — e começava a querer fazer sexo.

            Stabilium.

            Ellen melhorou a interação com os colegas de trabalho, se voluntariando para passar o café e também servindo a todos. Percebeu que, assim, conseguia se destacar no grupo. Além disso, pensou, o crucifixo de prata que agora usava dependurado sobre a camiseta do uniforme fazia com que fosse vista com bons olhos pelos demais.

            Em vez de uma pessoa antipática, rancorosa, sem graça e deprimida, talvez ela fosse apenas mal compreendida e estivesse passando por uma fase ruim.

            Queria muito um pau.

            Em casa, discutiram sobre a solidão da mãe. Disse a ela que estava sendo sondada para uma vaga melhor, no Recursos Humanos, onde não precisaria usar aquele uniforme ridículo. A mãe disse que ele lhe vestia muito melhor agora que estava malhando. Ellen disse que compraria um gato para fazer companhia à mãe.

            Em pouco tempo, as pessoas no serviço esqueceram quem Ellen já fora. Assim são os seres humanos. Agora todos gostavam dela e a viam como a melhor pessoa da linha de produção.

            A primeira caixa de Stabilium havia terminado. Descobriu que, caso comprasse o medicamento, cada caixa sairia na faixa de 200 reais, fora a consulta que precisaria ter com um psiquiatra para conseguir a receita.

            Sentiu que alguns colegas estavam começando a lançar olhares lascivos para sua bunda e faziam comentários. Queria poder se aproximar deles, mas não tinha nenhuma experiência no assunto e eles também não demonstravam muita iniciativa. Passou a ter fantasias eróticas com estupro e ver vídeos de sexo brutalizado na internet todos os dias.

            “O corpo alcança o que a mente acredita.” Ouviu isso de uma atriz na terceira temporada de Botched, que queria remover seis costelas para se parecer com uma fada de desenho animado.

            Pensou que era como se, antes, ela não tivesse pele e, com a carne crua exposta ao sol, fritasse como bacon na frigideira. Agora havia se formado essa sombra, feita de densas nuvens e, olhando para cima, pudesse enxergar o vapor d’água condensado que era seu mundo.

            Disse à mãe que começaria a procurar um lugar para morar sozinha. A mãe não gostou muito da ideia e disse a filha que ela não estivava ciente do quão trabalhoso era a completa independência.

            O gato estava deitado no seu colo. Ele ainda não tinha nome. Era gordo e amarelo.

            Sabia que, no fundo, a mãe tinha medo da solidão. Disse a ela que não se preocupasse, que seriam unidas para sempre. Isso a fez ficar em silêncio e deixar Ellen prestar atenção no programa.

            Sua encomenda chegou.

            Ellen mentiu que sua prótese peniana hiper-realista, com dupla camada beliscável, de 25,4 × 4,3 centímetros, era um romance de Hilda Hilst comprado na Amazon.

            Novos relatórios de pesquisa apontavam que Stabilium diminuía as atividades da amígdala cerebral.

            Outra colega começou a atrair atenção para a vaga no Recursos Humanos, com um sorriso mais simpático e sendo bem mais bonita, loira e magra, mesmo Ellen tendo perdido consideravelmente peso nos últimos meses. Em contrapartida, ela se tornou ainda mais prestativa, falando mais em Deus, mas não ao ponto de ser irritante como uma crente desmiolada, e os colegas pareciam gostar mais dela por isso.

            Suas férias ficaram para dezembro e sua mãe planejou viajar com ela para visitar a Basílica do Divino Pai Eterno. Ellen respondeu que não. Naquela semana, a mãe insistiu tanto no assunto que a fez pensar que algumas pessoas velhas vivem tempo suficiente para que seus familiares desejem suas mortes. 

            Ellen estava no final do primeiro trimestre com Stabilium e tinha consulta marcada com um psiquiatra para conseguir o medicamento de maneira legal. Para continuar pagando o psiquiatra, a academia, o futuro apartamento e poder viver de maneira mais confortável, seria necessário conseguir aquela vaga.

            No serviço, Ellen odiava profundamente todas as pessoas, mas continuava dizendo para que ficassem com Deus antes de bater o ponto. Considerava isso ser cristã de verdade. Além do mais, seguia imaculada como Nossa Senhora, embora sua vagina estivesse bem adaptada à entrada e saída de um falo enorme todas as noites.

            Sua concorrente saiu do jogo depois de sofrer uma fratura linear extensa que causou hemorragia, ao rolar pela escadaria do segundo andar. Disse que as duas se esbarraram por acidente e demonstrou muito lamento ao rever as imagens na câmera de segurança mal posicionada na extremidade do pavimento.

            “Treinar não fica mais fácil, é você que fica melhor!”, disse a atleta viciada em anabolizantes, que agora queria novas próteses mamárias, na quarta temporada de Botched.

            Na consulta, seu médico estava relutante em lhe dar a receita, dizendo que havia evidências científicas bastante sólidas de que Stabilium causava menor conectividade no córtex pré-frontal ventromedial. Talvez fosse melhor experimentar duloxetina ou bupropiona. Mas Ellen insistiu que o medicamento era o único que a fazia se sentir uma pessoa normal e viva, que fazia coisas nela voltarem a funcionar como deviam — pensou no ventilador mecânico que mantinha Stephanie viva naquele momento.

            Na academia, conheceu um homem mais velho, com corpo de pai de família e uma calvície tolerável, que lhe mandou uma mensagem de texto: “Motelzinho, hoje?”. Toda a experiência do sexo foi decepcionante, e não tanto pela comparação do pênis do sujeito com sua coleção de dildos, mas pela falta de coragem dele em explorar seu corpo como ela esperava.

            Ela finalmente conseguiu a vaga de Analista de Remuneração e Benefícios.

            Sua mãe chorou quando ela saiu de casa.

            “Tudo isso vai ser seu quando eu finalmente morrer! Não tem por que você gastar com aluguel no centro!”

            A mãe usava de tudo que conseguia imaginar para convencê-la a não deixá-la ali sozinha, naquele lugar, com o gato ainda sem nome, dizendo, entre outras coisas, que lhe daria um carro novo. Desde que seu pai morreu de um infarto fulminante, há quase duas décadas, não lembrava da mãe se envolver com mais ninguém e seu único relacionamento era com Ellen. Percebeu que a mulher dedicava seus dias a faxinas compulsivas que deixavam a casa limpa e alinhada enquanto seu corpo e psicológico viravam sucatas.

            A filha acabou aceitando o carro oferecido pela mãe, mas se mudou mesmo assim. Estava tomando dois comprimidos de Stabilium por dia e se sentia no controle.

            Em janeiro, os dias quentes davam o gostinho do inferno. Indiferente a isso, olhando através do vidro, ela escutava, sem demonstrar nenhum interesse, que a vaga de Coordenador de Recrutamento estava aberta e que, na sua opinião, não havia ninguém melhor do que ela mesma para preenchê-la.

            “Estamos procurando alguém com formação ou que esteja cursando a área de Psicologia”, disse a chefe, uma mulher baixa, de corpo compacto e geométrico, que lembrava muito um Minion, lavando as mãos no banheiro feminino.

            Ellen agora precisava encontrar alguma maneira de conseguir dinheiro para a maldita faculdade. Se conhecendo cada vez melhor ela sabia que não podia se permitir retroceder, porque isso acabaria com tudo!

            Ela chorava enquanto subia as escadas com o gato. Quando chegou no apartamento, soltou o animal no zerbino, secou as lágrimas e sorriu. Tirou seus sapatos e jogou sua bolsa de couro envernizado em cima da mesa. A bolsa escorregou pelo tampo e caiu do outro lado, no tapete, aos pés do aparador com estatuetas de santos católicos. Seus pés enervados e suados deixaram pegadas que evaporaram no assoalho de madeira até o quarto.

            Ao abrir a porta trancada do quarto, encontrou seu escravo do mesmo jeito.

            O homem pequeno levou um susto ao acordar abruptamente no meio de um sonho em que fumava depois de anos de abstinência. No sonho, a fumaça o sufocava como um líquido entrando pela garganta; na realidade, era sua própria saliva acumulada na máscara de vinil.

            “Preciso que enterre uma coisa para mim.”

            O escravo não podia ver nada, nem falar por causa da máscara, e respondeu com um ruído que tanto podia dizer “sim” quanto “não”. Estava nu, preso com cordas de algodão e tinha uma spreader bar entre as pernas peludas. Usava um separador de escroto que mantinha seus testículos afastados, deitado sobre um lençol vermelho de privação sensorial.

            Apoiando-se na cabeceira acolchoada, Ellen esfregou o pé esquerdo em seu rosto e lembrou das palavras de Jesus Cristo: “Os mansos herdarão a Terra.” Depois começou a soltar seus nós constritores, retirando antes o plugue ergonômico do sujeito, que já estava lá por mais horas do que o recomendado. Mas que graça havia no recomendado? — era o que ela pensava.

            Quando conseguiu se sentar na beirada da cama, mesmo depois de arrancar a máscara, seu escravo ainda sentia cheiro de gorgonzola.

            Ellen decidiu que o gato se chamaria Jack.

            Sobre a cômoda, uma caixa de tarja preta aberta, Stabilium, que estava subindo rapidamente no ranking dos medicamentos mais vendidos, já tendo superado os reguladores de colesterol.


domingo, 22 de junho de 2025

UM PRANTO NA ESCURIDÃO

            Em Suzdal, sua cidade natal na Rússia, a diversão favorita de Androva Smirnova era brincar de mãe com suas kuklas nos fundos da casa. Quando fosse adulta, depois de casar com seu príncipe encantado, dizia que teria muitos filhos. Na época, ela acreditava que os bebês meninos nasciam em repolhos e as meninas eram encontradas em rosas. Mesmo mais tarde, quando Androva soube dos horrores da gestação, com toda sanguinolência e evacuação involuntária no parto, seu desejo de ser mãe continuou pulsando dentro dela como uma infecção purulenta.

            Estava com suas bonecas sob a sombra das sorveiras, até que o cheiro forte de amônia na cabine de janelas fechadas a tirou do estado catatônico.

            Percebeu o homem ao seu lado. Ele precisava de elevação extra para o assento do motorista, usava boné de brim azul, parecia muito jovem, tinha óculos de grau e um retrognatismo agressivo debaixo do cavanhaque. A faca enorme, estilo Rambo, empunhada em sua mão direita, a fez desconfiar de que não estava ali por vontade própria.

            Androva começou a lembrar da pintura vermelha daquele caminhão Scania, dos desenhos de girassóis sorridentes na porta do carona e das palavras do médico:

            — Intoxicação por mecônio é quando as fezes do feto estão no líquido amniótico...

            No hospital, a tinham prendido na cama com cintas nas mãos e nos tornozelos para conter seu surto violento depois da notícia. O esvaziamento uterino aconteceria na madrugada, horas depois da constatação da morte do bebê.

            Quando entraram numa estrada de chão batido, estreita e sem nenhuma iluminação, ela pensou: "É minha hora de morrer..."

            No meio do mato, escondia-se uma pequena construção com tijolos podres e esburacados.

            O pânico a fez rir do visual do outro com a lanterna na cabeça. Os dois entraram no que lhe pareceu uma obra interrompida de um quarto infantil. Havia um pedaço de espuma encardido no chão, tipo colchonete, e uma corrente com cadeado num vergalhão descoberto na parede, onde ela foi presa pelos pulsos.

            Androva nem pensou em resistir.

            O rapaz cortou suas roupas e a marcou com um "X" na barriga, antes de sair para soltar os porcos do caminhão. Na escuridão, ela sentiu o sangue escorrer dos cortes pela coxa e molhar sua meia branca.

            O lugar fedia, e a jovem pensou em carne podre e merda. Chorando na escuridão, em um momento de mais lucidez, torceu para não ter matado o marido com o jarro d’água.

            No quarto do hospital, Androva havia descoberto que, com esforço, conseguia escorregar as mãos das cintas de contenção. Era só se concentrar, colocar o dedão entre o mindinho e o dedo anelar, e girar a mão com um pouco de jeito...

            Quando a oportunidade surgiu, ela se levantou e acertou o marido pelas costas com a jarra. Esperava que o vidro da jarra se quebrasse, mas, em vez disso, sentiu a cabeça do homem amortecer o impacto.

            — Não vou deixar que tirem meu bebê de mim — disse ela.

            O príncipe encantado tremilicava no chão do quarto.

            Quando as fortes dores das contrações começaram, ela foi obrigada a se deitar na espuma imunda. A imagem de um tronco sendo rachado no meio por um machado lhe ocorreu. O que sentiu não era algo que pudesse descrever. Diria que era como sobreviver a uma tortura mortal...

            Incontáveis vezes ela imaginou o rostinho redondo da criança no seu colo. Os médicos queriam tirá-lo dela, mas ela não deixaria acontecer. Por mais que um filho estivesse morto, ainda pertencia à mãe.

            A criança, lambuzada de sangue em seus braços, era perfeita. Um bebê completo, troncudo e careca, com um pequeno aparelho reprodutor que se parecia com uma castanha. Ele estava inegavelmente morto.

            Abriu os olhos do bebê para ver se eram azuis como os dela. Eram de um branco leitoso e desalmado, que a fizeram começar a chorar. Percebeu que havia parido um boneco hiper-realista, não um ser humano de verdade.

            Do lado de fora, o caminhoneiro colocou os porcos no cercado e depois os alimentou com farelo de milho. Não acreditava na sorte de ter encontrado aquela ruiva grávida e desvairada andando sozinha na marginal. Lavou as mãos e o rosto na torneira solitária do lado de fora e depois se despiu completamente. Tinha a superfície da cabeça totalmente sem cabelos, apesar da pouca idade.

            Ele olhou para seu pênis flácido e lhe deu um tapa forte.

            — Não faz falta. Minha amiga bem afiada resolve tudo por aqui — disse.

            Enfiou um pouco de pó na narina direita e levou a ampola com o resto do que sobrara. Gostava de cocaína quando enfiava a faca em alguém. Pressentia que conseguiria ter um vislumbre do Paraíso naquela noite. Nunca havia carneado uma grávida.

            Por alguns segundos, parado em frente à porta, o homem despido pensou se não seria melhor esperar pelo sol. Resolveu abrir a porta com um pontapé e começar tudo de uma vez.

            Androva o acertou bem no meio do rosto assim que ele entrou.

            Como no hospital, a mulher havia conseguido se soltar das correntes. Quando seu sequestrador virou de costas, outro golpe o atingiu no pescoço, soando como uma palmada bem forte.

            A sensação era como estar sendo golpeado com um peixe grande e molhado. Ele ficou desnorteado com a dor e, mais de uma vez, quase caiu. Seu rosto sangrava pelo óculos amassado na cara.

            — Para! Para, por favor! Eu juro que vou fazer o que você quiser… — gritava, perdido, apunhalando o ar com a faca.

            Quando conseguiu juntar os óculos do chão e ver o que estava acontecendo, através de flashes da lanterna na cabeça, ficou ensandecido com a imoralidade que estava presenciando. Tanta, que seu maior desejo naquele momento passou a ser esfaquear Androva duas mil vezes no seu rosto oval e sem graça.

            Ele avançou para cima dela, mas, descontrolado, acabou escorregando no tampão mucoso e na placenta, caindo de cabeça no chão.

            A luz da lanterna iluminou o rosto assustado de Androva no canto. Não usava mais o bebê como arma e agora o tinha desconjuntado nos braços.

            — Eu vou te matar... Vou te matar muito por isso, sua puta maldita...

            Sentindo-se pequeno e indefeso, ele tentou se levantar, mas não conseguiu. Tateou a perna direita e encontrou um corte profundo no interior da coxa, onde havia caído sobre a lâmina de sua faca.

            O sangue lhe escapava em profusão. Sua sensação de frio aumentou rapidamente. Não queria acreditar que iria morrer.

            Quando viu sua ampola de droga no chão, esticou-se para pegá-la, mas a mulher viu o que ele pretendia e foi mais rápida: esticou a perna e pegou a droga com o pé.

            Ela abriu a ampola, pronta para despejar fora. Os olhos do homem brilharam no escuro. Então, ela teve uma ideia melhor: aspirou a cocaína com toda a força dos pulmões.

            Seu cérebro se acendeu como uma lâmpada de halogênio. Ficou em pé, disposta e eufórica. Não sentia frio ou dor — apenas o sangue escorrendo pelas coxas feito mijo quente.

            Muito agitada e piscando sem parar, Androva sentiu que precisava sair dali. Foi quando o pranto do bebê ecoou pelo lugar. Ele a chamava em algum canto.

            Aquele som deu alguns segundos de sobrevida ao moribundo de olhos esbugalhados.

            Dando-se conta de que havia deixado o filho cair no escuro, a russa começou a recolhê-lo pelo cordão umbilical.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

ANA JÚLIA

            Uma estrela cadente cruzou o céu aos olhos de Ana Júlia. Ela olhava pela janela da cozinha com uma xícara quente de chá de hortelã entre as mãos. A noite estava nublada e ela teve sorte de as nuvens darem espaço para que testemunhasse aquilo e fizesse um pedido. 

            Voltou a chover.

            Estava chegando ao fim mais uma noite insone de barulhos do marido pela casa. Passava a noite acordado fazendo lanchinhos e assistindo a filmes antigos na tevê da sala, chafurdando em documentos antigos e nos álbuns de fotos da família.

            Ana Júlia desconfiava que, mais uma vez, o marido não estava tomando os remedinhos. Na semana passada, ele queria comprar uma arma de fogo. Ela chamou a atenção para a total inexperiência do casal com essas coisas.

         — Não existe mistério, é só apontar e atirar até a outra pessoa cair no chão — disse o marido.

            Ana Júlia se perguntou se ainda era uma boa esposa, e já sabia a resposta: não se importava mais. Mas sabia que alguma coisa tinha que mudar ali, e a única das duas pessoas que ainda possuía um pouco dessa capacidade  de mudança era ela.

            Ana Júlia queria ter herdado a facilidade que a mãe tinha em ficar sozinha. A principal regra da casa era não incomodá-la quando estivesse na máquina de escrever -  e ela estava sempre escrevendo. Seu relacionamento com a mãe sempre lhe pareceu não ser tão profundo quanto o dela com os leitores. 

            Havia uma lembrança da infância entre as duas, uma conversa sobre acreditar em estrelas cadentes...

            Ana deixou a xícara na pia cheia de louça. Canecas sujas de sopa de micro-ondas, pratos com cascas de pão, copos sujos, talheres com crostas de comida grudada... Ela, naquele momento, não tinha paciência para lidar com aquilo - não antes de um banho.

            Felizmente, tudo agora estava quieto e calmo. 

            Depois de certa idade, a companhia um do outro acaba importando cada vez menos, pensou Ana Júlia. A imagem do parceiro se torna apenas um tipo de ruína que lembra os bons tempos. Dias felizes, quando o sexo ainda era, na pior das hipóteses, razoável. Uma época boa, quando podia passear debaixo de chuva sem pegar um resfriado quase mortal.

            Envelhecer era mesmo muito triste.

            Quando abriu a porta do quarto, encontrou seu marido enfurnado no guarda-roupa, se enforcando com um cinto de couro. Algo a parte do seu mundo, coisa de um lugazer bizarro onde coisas de terror aconteciam de verdade. 

            Ana Júlia percebeu que nunca tinha pensado em suicídio de verdade.

            Os olhos vermelhos apertados, o rosto inchado fazendo uma careta e os pés escorregando no chão do quarto…Talvez o marido quisesse voltar atrás, ela pensou.

            Ana fechou a porta. 

            Voltando a abri-la, ela espiou para ver como o marido estava. Dava para perceber que sua tentativa de pôr um fim na própria vida definitivamente não estava saindo como o ele queria. Seu rosto agora havia mudado de cor para uma escala leve de roxo...

            Devagar, Ana entrou no quarto e caminhou até ele, reparando na bagunça que havia feito ao retirar as gavetas do roupeiro para poder usar a barra dos cabides como apoio. 

            As gavetas empilhadas haviam desmoronado, e principalmente o conteúdo de uma delas se espalhara pelo chão. O marido não conseguia se manter em pé porque estava escorregando nas calcinhas de Ana Júlia.

            Seus dentões amarelos cerrados, as veias pulsando na testa, os olhos vermelhos saltados, a cara de sapo-boi, sua pujante barriga para fora do pijama de flanela que ela havia lhe dado… 

            Uma poça de urina se formava no piso do quarto.

            Ana Júlia observou os detalhes, se perguntando se ele conseguia vê-la naquele momento, sem fazer absolutamente nada, parada como uma estátua na sua frente.

            Ela estendeu a mão para dentro do guarda-roupa e pegou sua capa de chuva.


domingo, 15 de junho de 2025

PESO MORTO NO PRATO DA BALANÇA

            Eric já havia bebido muito. A esposa olhava de esguelha. Ele deu‑lhe um sorriso e acendeu seu último cigarro.

            “Qual é?”, ele queria dizer com aquela expressão. “É a porra do meu aniversário de 43 anos”.

            A música alta incomodava os vizinhos, e as crianças corriam soltas pela rua. As mulheres, excitadas pela bebida, falavam obscenidades, enquanto os homens, debaixo do quiosque de madeira, ficavam cada vez mais desfigurados.

            Yasmim não gostava disso. Não gostava de ter de beber tanto sempre que se reuniam, nem de não manter um diálogo conexo que não envolvesse banalidades —  mas sabia ser isso impossível; por isso, a opção de que menos gostava era a mais acertada quando os amigos do casal se encontravam.

            Quando era criança, Yasmim queria ser veterinária, mas engravidou aos 15 anos e, atualmente, tinha três filhos e trabalhava como diarista. Ela mantinha um caso sexual com o patrão — todos sabiam, menos o marido. Ou ele não se importava.

            As crianças começaram a soltar cometas no quintal. A maioria ficou hipnotizada com o rastro de luz que os fogos de artifício deixavam, subindo rumo às estrelas, no sentido oposto ao dos cometas de verdade.

            De repente, Eric saiu da casa com a espingarda do trabalho. Engatilhou a arma, com capacidade para cinco cartuchos no tubo, e começou a descarregá‑la para o alto, como se quisesse atingir algo invisível no escuro. Uma das menininhas pensou em morcegos — morria de medo deles.

            As explosões dos disparos foram muito mais estrondosas do que os foguetes e fizeram as crianças saltarem e se recolherem junto aos pais.

            — Atira! Atira!... — gritavam as crianças endiabradas, ainda que com seus esfíncteres anais involuntariamente apertados.

            Yasmim gesticulava para o marido: nem pensar.

            Eric colocou mais um cartucho na arma e engatilhou‑a com o cano apontado para baixo, como recomendado. Então passou a espingarda por baixo da axila direita para encurtar a distância e alcançar o gatilho com o dedo médio. Yasmim ia alertá‑lo de que aquilo era um erro — a arma estava apontada para a região atrás da orelha dele. Se disparasse assim, o calibre 12 carregado com balote explodiria sua cabeça.

            Mas o marido se adiantou e disse:

            — Você sabe por quê... sua cadela...

            Ele, afinal, se importava.

            O som do disparo pareceu multiplicar‑se, amplificado pela atenção extrema de todos àquele milésimo de segundo. Ninguém conseguiu desviar os olhos do rosto contrito até o desfecho do acontecimento: a parte de cima da cabeça sendo pulverizada.

            O corpo caiu sobre a lâmpada solar do quintal, a arma equilibrada nas costas. Eles gritaram de algum jeito em algum momento, menos o irmão tetraplégico de Yasmim, na cadeira de rodas, que nem conseguia mover os lábios por uma lesão entre as vértebras C1 e C8.

            Todos, querendo fugir da cena, esqueceram‑se do inválido à mesa. Ele foi a única testemunha de quando uma menina de quatro anos recolheu pedaços da massa cinza‑rosada e ossos do crânio na grama, para recolocá‑los na tigela em que se transformara a cabeça do seu cunhado.

            Shadow sentiu uma erupção de bem‑estar como talvez nunca sentira, desde quando participava de corridas clandestinas de moto, pingando hidrazina no tanque de combustível para dobrar o giro e sob efeito de cocaína.

            Nunca gostara do cunhado, mas esse não era o motivo de sua felicidade. Era o que os alemães chamavam de schadenfreude, a alegria pela desgraça alheia — sentimento dos mais primitivos da humanidade. E como era difícil achar maior desgraça que Shadow.

            As pessoas acham que o pior de sua condição era depender dos outros: ter a mãe lavando seu corpo definhado, sobre uma lona plástica protetora — ele mesmo tinha certeza de que nenhuma mãe deveria ver o pênis adulto do filho.

            Puxava-lhe o prepúcio, expunha seu coração de galinha, e lavava‑a com água morna e sabão neutro, friccionando suavemente o escroto para remover suor, células mortas e gordura.

            O que ultimamente lhe dava arrepios era começar a achar ela uma mulher atraente.

            Estava terminado, enfim.

            A criança recolhera todos os pedaços; restava apenas o liquido escuro e grudento na grama. Era triste, mas em sua loucura, também bonitinho: o rostinho inabalável, sorrindo, e esfregando as mãos.

            Tocava "Fogo e Paixão" ao fundo.

            Uma lágrima salgada escorreu do olho de Shadow.

            De repente, um sacolejo. 

            Percebeu que o corpo começou a reagir: pequenas contrações nas extremidades das pernas e dos braços; os dedos, em forma de garra, fechando‑se ao lado do corpo... ele tentava erguer‑se de novo, como um fantoche de ventríloquo.

            Yasmin falava com a polícia pelo celular quando voltou a cena, sentindo-se estranhamente controlada, mas ainda não dando falta do irmão, assim como o resto das pessoas, inclusive sua mãe, que em estado de choque não conseguia parar de rir se esfregado no muro de tijolos à vista da casa.

            A mulher do outro lado da linha pediu mais uma vez que ela repetisse o endereço.

            Eric estava de pé, equilibrando os resíduos encefálicos, e pedia desculpas.

             Não — disse a menina a pergunta que Shadow não conseguia fazer em voz alta.

            Fim.


domingo, 11 de maio de 2025

O GATO AZUL

              Leon amava o boxe.

            Nos seus melhores dias no hospital, quando a miséria e a dor lhe davam folga, ele se lembrava dos velhos tempos e desejava poder socar alguém de novo. Sabia que era tarde demais — era uma carcaça de si mesmo, sem chance de voltar atrás —, mas gostava de sonhar que poderia ter sido famoso. Fora um lutador canhoto e rápido para sua categoria. Seu problema é que também era mau demais. Ser mau é indispensável no boxe, mas, em excesso, estraga a vida do lutador como sal demais na comida.

            Das máculas na vida de Leon, a que mais o fazia sofrer no leito de morte era a ocorrida nos primeiros anos da vida. Achava estranho como as coisas funcionavam, mas era verdade, lembrar do seu gato de estimação era sua tortura naquela cama rançosa de hospital. Tentava se tranquilizar, aceitando que era uma criança na época. Querendo ou não, a verdade é que somos obrigados a superar os traumas do passado, muito mais do que morto.

            Mas o gato persistia.

            Ele costumava amassar pão em seu rosto quando a mãe o deixava entrar de manhã. O pequeno Leon o colocava debaixo das cobertas para se esquentar, e o bicho ronronava em seu peito e dormia. Seu nome era Jimi, pelo que ele se lembrava. Um gatinho cinzento/amarronzado, meio siamês, de olhos vesgos e talvez azuis, que gostava de escalar as coisas com as garras afiadas e correr atrás da criança por alguma razão.

            Um dia, Leon achou que Jimi ficaria muito engraçado se fosse pintado de azul. Quando encontrou a tinta na garagem, foi a primeira coisa em que pensou. E com mais ou menos 6 anos, ele não tinha a mínima ideia do que era intoxicação química ou edema pulmonar grave, e quase nada sabia sobre como funcionava a morte.

            – Olha o que seu filho fez com a merda do gato!

            Essas foram as palavras da mãe, segurando pelo rabo o trapo azul e encharcado de tinta óleo que se tornara Jimi. Elas ficaram em sua cabeça. Sempre que lembrava delas, uma espécie de descarga elétrica percorria seu corpo e fazia uma careta.

            – Coloca esse negócio no lixo de uma vez – disse seu pai, jantando na mesa da cozinha.

            Leon ia e espiava Jimi sendo soterrado por imundices no cesto de lixo. Borra de café, restos de comida, um maço amassado de Charm...

            No outro dia Jimi não estava mais lá.

            E toda vez que pedia por um animal de estimação, fosse da espécie que fosse, a mãe sempre lembrava de Jimi. Ela descrevia sua morte angustiante, se contorcendo, de maneira rica em detalhes: o urro bilioso, as convulsões do organismo lutando para eliminar os agentes tóxicos, terminando com os tremores da asfixia. 

            Sua mãe era uma atriz de entrega absoluta.

            Talvez por isso tenha escolhido o boxe, porque era um esporte que ajudava a acalmar questões internas. Claro que também gostava da beleza do contraste brutal entre o instinto e a técnica, que melhorou sua coordenação, tendo ele crescido em estatura muito rapidamente. E por muito tempo o boxe serviu como uma forma de ter mais autocontrole. Leon se tornou um dos dois melhores pesos-cruzadores da academia. Estava prestes a disputar o torneio municipal quando assistiu ao filme Rocky, Um Lutador no cinema, e as coisas em sua vida mudaram. 

            Na cena em que Balboa espanca uma carcaça de boi no frigorífico, nasceu ali um demônio da perversidade — um pensamento larval e pruriginoso que passou a habitar seu cérebro e a instigá-lo tanto que saiu sem saber o resultado da luta.

            Andava pela rua pensando naquilo. Talvez a polidez das convenções sociais e instituições fosse um problema no boxe. Ao mesmo tempo em que sofria com medo de estar ficando louco, sentia uma força incontrolável dentro do peito. Era como se uma corrente invisível estivesse arrastando seu espírito para um lugar de ambiguidade, entre sua perdição e salvação.

            Depois de algumas semanas, Leon nunca mais pôs os pés em uma academia de boxe.

            Sua mãe morreu no inverno. Em meio à confusão e ao delírio provocados pelo tratamento inútil, durante o derrame pleural que foi o golpe final, ela lhe pareceu imitar, pela última vez, o gato Jimi morrendo.

            Se aquilo fosse a prova da existência de um deus punitivo, Leon pensou, ele estava condenado. Na época seu testículo esquerdo tinha o triplo do tamanho do direito. Tentou se tranquilizar com a ideia de que talvez Ele apenas gostasse de gatos e não se importasse, necessariamente, com as vidas em geral. Agora tinha uma família e duas filhas para se preocupar.

            Quando a mais nova o visitou com os netos, no que seria mais um dia no vazio dos últimos dias da vida, tentou contar sobre Jimi. Começou dizendo que azul sempre fora sua cor favorita, e um dos netos disse que também era a favorita dele.

            O menino lembrava um pouco ele mesmo na sua idade, com uma cicatriz no meio da testa polida, provavelmente causada por uma danadice.

            "Nunca pinte seu gato", Leon gostaria de ter dito, mas a falta de dentes o fazia ser impossível de compreender.

            – Agora nós temos que ir, papai. Deixei as compras no carro e estacionei em uma vaga debaixo do sol – disse a filha de modo gentil e indiferente.

            Ele sempre preferiu a mais nova, mas gostava das crianças.

            – Dá um beijo do vovô.

            A menina se inclinou e beijou sua careca marrom.

            – Você também!

            O menino fez cara de nojo e riu com repulsa para o homem na cama.

            Leon amava o menino.

            A maioria das pessoas acha deprimente um moribundo sozinho no quarto, mas estar em uma condição onde você pode praticar estar morto era relaxante para Leon. Imaginava-se fora dali, livre em um caixão lustroso, com algumas pessoas ao redor, e depois derretendo a sete palmos de terra.

            – Você é um cara muito esquisito, mas eu te amo mesmo assim – disse sua esposa, Antônia, uma vez.

            Estavam sentados na namoradeira, sob a luz do sol, fumando e falando sobre pedofilia.

          A mulher ainda não tinha começado com os delírios paranoides e alucinações auditivas, dizendo que haviam ratos, baratas e aranhas na cama, e um invasor noturno na casa que queria matá-la.

            Leon também amava a esposa. Gostaria de ter sido um homem mais generoso com as palavras e dito isso a ela mais vezes.

            – Eu não sou estudado, mas acho que todo mundo tem uma coisa ruim dentro de si… tipo uma vontade de destruir, de machucar. Quando seguramos demais, isso começa a vazar de um jeito torto… Tem gente que vira amarga, outros explodem do nada, tem quem desconta em bicho, em criança, ou até em si mesmo – Leon continuava.

            – Por isso você matou aquelas mulheres? – a esposa intenrrompeu.

            Leon ficou calado, encarando a cerca viva.

            Aos 25 anos ele começou a espreitar jovens em viagens noturnas de ônibus. Naquele tempo era mais fácil, porque na década de 80 não havia tantas câmeras. Em um canto escuro, sua figura negra conseguia ser esquecida pelos motoristas através do retrovisor.

            Ele as despia por completo e as amarrava com uma corda pelos cabelos aos dedões dos pés, formando um arco que elevava a mais ou menos um metro e meio do chão. Balançando os braços naquela posição e com os rostos distorcidos, as mulheres eram como figuras alienígenas tentando se esconder da exposição.

       Seus dedões acabavam deslocados por causa dos golpes, e um deles era sempre o primeiro a escorregar, fazendo-as parecer com bailarinas suspensas em arabesque, flutuando sobre uma poça das secreções. 

            Nesses momentos, ele às vezes parava de bater nelas, apenas para contemplá-las e chorar.

            – A mãe está certa, eu não posso ter um animal de estimação – Leon sempre dizia, no final.


            Quando o pequeno estudante de enfermagem entrou no quarto para aspirar as vias aéreas de Leon, não conseguia garantir se o que via era um sorriso banguela, mas foi bom imaginar que era, de fato, um sorriso naquele rosto. O jovem sabia que era assim que se encerravam as vidas humanas. Era daquelas pessoas que buscam sempre ser positiva e pensar que o importante era amar e deixar marcas por onde passasse. Acreditava no dharma do hinduísmo.

            – Porra, esse cara morreu! – percebeu ao tocar Leon, naquele momento gelado como um túmulo.

            O enfermeiro começou a aspirá-lo, com medo de receber a culpa por aquilo.


sexta-feira, 18 de abril de 2025

EM NOME DA PROTEÇÃO

            Os médicos disseram que a menina não possuía tendência à violência. Garantiram que o que ocorrera fora um surto paranoide provocado pelo ambiente em que ela vivia. Tomando os remédios nos horários certos, com amor, atenção apropriada e carinho — além de consultas salgadas toda semana — coisas como objetos inanimados falantes não voltariam a acontecer.

            “O quadro na parede disse para eu matar minha mãe.”

            Havia usado um tesourão de poda para fazer isso no banheiro da suíte. A mãe estava caída seminua no piso e com pernas enlaçando o vaso sanitário, numa poça enorme de sangue.

            Mas o que ela queria?, as pessoas pensavam. Mantinha a criança presa, acorrentada num tonel plástico...

             — Ei... pequenina... olha pra mim. Tá tudo bem agora. Tá mesmo. Ninguém vai te colocar de volta lá dentro. Nunca mais. Você não precisa mais se esconder. Nem se defender. Eu sei que... eu sei que foi horrível. Mas escuta, você não tá mais sozinha.

            Esse era o tio.

            Estava muito feliz com a irmã morta  — ninguém o condenaria se dissesse isso em voz alta. Mas estava feliz porque algo havia acontecido que o transformara no descendente mais idôneo. Se seus pais estivessem vivos, agora ele seria o filho preferido. Afinal, o que eram um simples alcoolismo, o fracasso acadêmico e a inconstância profissional em vista do que sua irmã fazia com a própria filha?

            Não tinha como saber se a sobrinha estava o escutando enquanto se abria. Sentada à sua frente, de cabeça baixa, a menina de 13 anos comia a gororoba do hospital psiquiátrico, que ao olhos dele se parecia muito com restos retirados do ralo da pia da cozinha. Todas as unhas das mãos haviam sido arrancadas.

            “Ela passou por coisa demais...”, os médicos repetiam até anojá-lo. Queriam mantê-la ali para um tratamento mais concentrado. Mas o tio não tinha paciência para nada daquilo. Preferia se deixar levar, sem todo o dispêndio físico e mental, como fazia com suas hemorroidas.  

            Depois que o período obrigatório de sete meses de internação terminou, levou a sobrinha direto dali com um monte de receituários. Mostrou a casa para ela. Seu quarto espaçoso no fim do corredor, com paredes verde-menta, roupas novas, televisão, um quadro de acrílico com a lua em fases – nada de palhaços – e a vista para um jacarandá-mimoso cheio de flores roxas. 

            Ela andava estranho. Os médicos a haviam a diagnosticado com  genum varum (pernas arqueadas), quando os os joelhos se afastam enquanto os tornozelos se tocam. Agravado por posturas em que a criança permaneceu sentada com as pernas abertas ou tensionadas por muito tempo. 

            Fez a sobrinha arrastar os pés pelo assoalho em frente à televisão com uma reprise *The Vampire Diaries*.

            — Vem cá, senta aqui pertinho de mim... Tem uma coisa que eu preciso te dizer. Uma coisa boa, prometo. A partir de agora, você é minha filha.

            A menina ainda não falava nada. Pensou que talvez fosse por causa dos remédios tarja preta. 

           — Tá na hora do remedinho mágico. Eles ajudam as pessoas que passaram por coisas que não deveriam. Tome esse grandão para colocar as ideias em ordem e superar pensamentos ruins, e o menorzinho... é para apagar feito uma vela e ir dormir com os anjos!

        Tinha aprendido a falar de maneira afetiva no Curso de Preparo Psicossocial e Jurídico. Achava infantil, porque sua sobrinha já devia cultivar uma touceira de pelos castanhos lá embaixo e, logo, começaria a sangrar pela vagina todo mês — o que deixava para ser problema das cuidadora.

            Ao fazer tomar os remédios com um copo de suco de laranja, percebeu como ela tinha uma boca bonita. Lábios volumosos de uma negra em uma figura feminina pálida e cheia de sardas. Eram de um rosa delicado, que fazia com que aparentasse ainda mais vulnerabilidade. Quando os olhos dela o encararam na cozinha, negros como duas jabuticabas, com seu rosto de jovem felina assustada, sentiu algo instintivo mover-se em sua cueca. 

            Deitou-se na cama, em seu pijama escuro de cetim com estampas de formas geométricas coloridas. Espiou a televisão e viu um crocodilo-do-Nilo relaxar na água estagnada. Algum pensamento fez com que o predador pré-histórico saísse para caminhar pela areia quente. 

            Sorriu. 

            Lembrou que dos 16 aos 20 e poucos, havia feito algumas tentativa de suicídio e, até aquele momento, não sabia o que havia perdido.

            Olhou no celular e a viu deitada, solene, de bruços em sua cama, vestindo o pijama azul-céu que lhe comprara. Seus longos cabelos ondulados estavam espalhados por toda parte e cobriam seu rosto pequeno na luz infravermelha da câmera de vigilância. Pensou que podia ir checar se respirava, e a imagem daquilo o fez se sentir meio pervertido. 

            O tio masturbou-se em uma das meias soquete. Tentou não terminar pensando na sobrinha, porque não queria se sentir um pedófilo, e nos últimos segundos gozou depressa em um limbo pouco satisfatório e estranho com a imagem pipocada do Papa Francisco.

            O que faria alguém fazer aquilo com uma criança? Sua irmã, por mais conflituosa, desalmada e inflexível que um dia foi, devia sentir o quão reprovável era aquilo que fazia com outro ser-humano, carne do seu sangue… 

            Lembrou que ela estava uma “pilha de nervos” a última vez que a vira e lembrou que sempre gostou dessa expressão. Imaginava uma pilha de nervos humanos amontoados.

            Por garantia, havia trancado a porta do quarto. Não demorou para chegar a fase REM do sono.

            No sonho que teve, estava sentado à mesa do café da manhã. Havia um arranjo floral com flores frescas — lírios e rosas brancas, seu pão de nozes, um cesto com frutas, manteiga gourmet e outras coisas indiscerníveis para ele. Pode até sentir o aroma do café saindo da cafeteira italiana.

            Começou a descascar uma das bananas do cesto de frutas e a devorá-la com gosto. Era uma fruta enorme e parecia não ter fim. A polpa escorria pelo canto da boca e sentia-se bem. Tentar devorar a fruta completamente parecia impossível e, ao deixá-la de lado no prato, percebeu uma tonalidade que se destacava sobre o tampo de mármore da mesa. Uma linha escura desenhada em baixo-relevo.

            Afastou o pires com a xícara ainda vazia e ergueu a toalha para analisar melhor. Era um contorno que se alongava de maneira metódica, formando uma cruz espinhosa no meio, que, do seu ponto de vista, estava de cabeça para baixo. Continuou a tirar as coisas, procurando por mais. Aproximou os olhos e, sob o reflexo da luz antinatural, pôde ver inscrições: o nome e as datas de nascimento e falecimento.

            Estava fazendo o desjejum sobre a tampa do jazigo da irmã.

           Despertou com o coração batendo forte, e sua reação quase imediata foi olhar as câmeras de vigilância pelo celular. A sobrinha dormia descoberta, como um bebê drogado. Percebeu que estava molhado e, num primeiro instante, pensou ser suor. Percebeu o que realmente aconteceu ao cheirar a mancha enorme no lençol de luxo novo. 

            Havia urinado na cama, como não fazia há muito tempo. Ficou mais calmo depois de se banhar e trocar o pijama. Depois disso, pensou que devia agir como um adulto — para compensar — e se sentiu orgulhoso e estável ao lembrar da posição de guardião legal que havia sido agraciado. Caminhou pelo corredor silencioso e bem iluminado pelas arandelas de parede modernas. O piso de madeira encerada recém instalado estalava suavemente sob seus passos. Sentia-se quase totalmente acostumado aquela amplitude em comparação a seu antigo apartamento. A porta branca que encarava no final do corredor era a da sobrinha.

           A menina seguia descoberta, quase na mesma posição, de pernas abertas, com um dos pés quase sem meia sobre o edredom colorido. Ele aproximou-se com cuidado, sentindo seu coração bater a mil por tanta vulnerabilidade. Seu espírito parecia vibrar sobre a pele, e os testículos formigavam no calção modal como uma doença. Uma voz em sua cabeça perguntou quanto tempo suportaria aquilo.

            Puxou as cobertas até o pescoço da sombrinha, voltando a cobri-la com o carinho. Afastou seus cabelos ondulados e, ao expor a testa espinhenta da jovem, se curvou para beijá-la lentamente na bochecha delgada.

            Foi como acionar uma armadilha ao pisar. 

            O golpe veio rápido e certeiro, de baixo para cima, desenhando um arco de respingos de sangue no ar. Não houve dor nos primeiros instantes, mesmo sem o choque da adrenalina, pois a surpresa o anestesiara, apenas o questionamento de onde aquela putinha havia arranjado um estilete?

            Tentou conter o sangramento com ambas as mãos. Não parecia possível e logo sua pernas começaram a perder as forças, parecendo cada vez mais com pernas de borracha. Tombou no carpete, no meio do quarto.

            – Sua porca!.. – foi o que disse, com a voz rouca por causa da lesão dos nervos da laringe.

            – Porco – devolveu a menina imediatamente, para sua surpresa. Sua voz era estridente e de registro glótico.

            Ela jogou as cobertas para longe e ficou de pé ao lado da cama. Apesar de quão afiado pareceu, não era um estilete que usara, mas uma lasca de aproximadamente quinze centímetros de vidro, provavelmente retirado de uma moldura das fotografias em preto e branco de suas viagens, emolduradas no corredor, ele pensou. Lembrou da irmã dizendo o quanto eram kitsch. As mãos da menina sangravam pela firmeza que segurava o vidro e o sangue pingava por entre seus dedos ossudos.

            — A terapeuta familiar disse que vamos aprender a conviver juntos... — chiou o tio, tentando trazer a calma. — A gente só precisa de tempo... tempo pra se conhecer de verdade, só isso... Au... Au...

            A sobrinha começou a perfurá-lo, de todos os lados. Quando o tio começou a rolar pelo quarto tentando se proteger, ela subiu em suas costas e começou a golpear seu ânus com todas as forças, soltando uma risada arfante.

            A dor era excruciante. No cérebro do homem, certa luz oscilava como uma sirene de ambulância. Sentia as ferroadas dolorosas provocados pelos golpes rompantes daquele objeto rombudo na carne desesperada e os estirões nos músculos — até o vidro se quebrar em seu corpo. 

            Era impossível raciocinar para sair daquela cenário. Em um momento, comprimidos brancos, semi-derretidos, jogados debaixo da cama, estavam diante de seus olhos.

            – Minha filha... Minha filha... Minha filha... – ele balbuciou, como se houvesse verdade nisso e fosse fazer ela buscar ajuda.

           Aurora já havia partido pela janela, agarrando-se à árvore como uma macaca alucinada de pernas tortas. Ela desapareceu na noite congelante daquele bairro nobre, para nunca mais ser encontrada com vida.

quarta-feira, 5 de março de 2025

OLD BEER

            Eduardo tentava dizer que foi a lagartixa a culpada — tudo o que se lembrava. Dela grudada no vidro dianteiro, resistindo à alta velocidade do carro, roubando toda a sua atenção do trânsito. Era quase esverdeada, escura, com olhos amarelos e escamas arrepiadas. Nunca tinha visto coisa igual. Fez ele lembrar das aulas de biologia do 3° ano e, seguidamente, do que seu padrasto lhe dizia sobre os negros não conseguirem nadar por terem excesso de músculos nas pernas.

            Enquanto tentava se explicar, bastante nervoso, começava a ressentir-se que passava por louco. O ar prostrado,  os móveis velhos descascando, típicos de uma repartição pública malcuidada, e a sensação de obstrução documental aumentavam sua ansiedade. Mas talvez o pior fossem os olhares das outras pessoas. 

            "Preciso muito me esforçar para mostrar a eles que sou uma pessoa boa", ele pensou. "Que não preciso ser tratado com essa indiferença negativa!"

            — Mas então, eu machuquei alguém? — ele perguntou.

            O homem do outro lado assentiu com sua cabeça careca e sorriu. Vestia-se como um esportista de fim de semana, com uma camiseta de poliéster e shorts encardidos apertados no peso mal distribuído do corpo. Calçava apenas um dos tênis e, no outro pé, uma meia encardida.

            — O que eu falei de engraçado?

            “Calma!”, Eduardo pensou. Tinha que se controlar e não ficar nervoso; achava que esse era o truque. Pensou em todas as vezes em que se safou de situações como aquela, quando foi detido por dirigir embriagado. “E, pelo amor de Deus, eu nem bebi tanto”, ele concluiu, vendo a maneira clara como seus pensamentos fluíam.

            — Você não lembra de mim, de verdade, não é? O cara que você atropelou... em 2012 — disse o corredor. 

            — 3 de janeiro de 2012. Aquele foi um ano apocalíptico — ele continuou. — Segundo o calendário maia, sei lá, seria o ano do fim do mundo. Garanto que era uma ótima desculpa para encher a cara todos os dias, sem culpa. Eu queria entrar em forma.

            Não lembrava de nenhum acidente ter acontecido cinco anos atrás. Muito menos entendia que relação isso teria com sua situação no momento.

            — Desculpe, cupimcha, mas você é que andou bebendo. Sou um excelente motorista. Nunca atropelei ninguém na vida. 

            De repente a lembrança de estar parado sobre a faixa amarela quando um tênis branco de corrida despencou do céu no silêncio da noite lhe surgiu.

            Uma memória fabricada, tinha certeza.

            — É, pode ser que não lembre mesmo — o outro continuou. — O etanol afeta neurotransmissores como o GABA (que inibe a atividade cerebral) e o glutamato (que estimula a comunicação entre os neurônios).

            — Você é médico?

            — Gosto de ler.

            — Se te atropelei em 2012, não acha muito tarde para fazer caso disso!?

        — Já ouviu o ditado “paciência e canja de galinha nunca são demais”?

            — Esse não — Eduardo respondeu, sentindo o incomodo em seu estômago, como se um caroço de abacate tivesse acabado de se formar. — E você já ouviu o ditado “Água mole em pedra dura, tanto bate até que acaba a paciência”?

            Estava cansado de esperar. Sentindo-se mais seguro, achava que havia entendido um pouco melhor sua situação: estavam tão doidos para enquadrá-lo por algo que haviam desencavado um caso de 2012!

            — Se ninguém vier responder logo algumas perguntas, eu vou embora daqui! 

            Ninguém respondeu.

            — Que tipo de atendimento de delegacia é esse aqui?! 

            Do outro lado do biombo de vidro, atrás de um computador, uma funcionária de cabelos amarelos e meia-idade o encarava. Seus lábios finos e vermelhos de batom, no bico involuntário que fazia, lembraram a ele um apito de carnaval.

            A mulher apontou para algo às suas costas. Ao virar-se, viu um folheto colorido grudado no quadro de avisos. Fez um sinal inquisitivo para a mulher, que respondeu com um gesto afirmativo quase maternal.

            Com um pouco de esforço ele ergueu o braço esquerdo e arrancou o folheto para ler.

            O folheto começava:


            VOCÊ ESTÁ AQUI PORQUE AINDA HÁ ALGO A PROVAR...


            Foi quando a porta se abriu, e aquela pessoa, com a cabeça coberta de enormes moscas varejeiras cromadas em azul-esverdeado saiu mancando dela. 

            Era a visão mais aflitiva que Eduardo já tivera na vida. Em sua companhia estavam dois homens com distintivos que cintilavam tanto quanto os insetos borbulhantes naquele rosto. Com a mão retorcida e ensanguentada, a pessoa, um homem de estatura baixa, aida menor por causa de uma corcunda, abanou os insetos, descobrindo a rachadura entre os olhos inchados de seu rosto desfigurado.

            As moscas voltaram num instante ao lugar, escondendo de novo a rachadura.

            O homem emitiu um assovio entre os insetos e ergueu o braço na jaqueta de couro marrom, apontando para Eduardo no banco. Seu reflexo foi balançar a cabeça em negativa àquele dedo.

            De onde estava, podia ver o interior da sala escura. Haviam dois pontos de luz amarelados e Eduardo podia ouvir como se algo grande respirasse lá no fundo.

            — Por favor, queira nos acompanhar, senhor Eduardo Delis Barbosa — disse um dos agentes, um homem negro com tranças nagô.

            Eles o ergueram pelos braço – seu corpo, uma espécie de massa desconjuntada, alquebrada, envolta em tecido ensanguentado, com algumas partes dependuradas em fiapos de carne e nervos... – Não sabia o que dizer e como resistir, ainda pensando nas moscas. 

            Do lado de fora, o homem esperava resuluto Ele juntou o folheto do chão. Com uma ilustração estilo cartoon, de entidades cobertas por lençóis brancos, o folheto na frente:


VOCÊ ESTÁ AQUI PORQUE AINDA TEM ALGO A PROVAR

O Purgatório não é um castigo, mas uma segunda chance. Como você age neste limbo determinará seu destino final.

Aproveite esta oportunidade!


            Quando acordou, o sol raiva no horizonte, podendo ser visto com previlégio de onde estava, um posto de combustível fechado na cidade. Foi um alívio saber que se encontrava inteiro, não no purgatório, mas tirando um dos seus cochilos estratégico. Sentia o gosto do azedo de cerveja velha na boca. Mesmo depois de se hidratar e lavar o rosto na torneira do jardim ao lado do prédio,  Eduardo conservava a sensação de irrealidade naquela madrugada.

            – Nunca mais... – disse ele – Nunca mais na vida!

           Se sentiu deprimido por ser aquele ainda os primeiros minutos da sua jornada de sobriedade. Voltou para o carro, bateu a porta e levantou o banco. Quando se voltou mais uma vez para o horizonte, viu a lagartixa do outro lado do vidro da janela do carona. Agora sua barriga estava estufada com uma forma escura que se remexia em seu interior semi-transparente.

            – Dirija – disse a criatura de olhos amarelos.

            E ele dirigiu. Ainda com o gosto de cerveja velha na boca.  


domingo, 16 de fevereiro de 2025

ANIMISMO

            Sob o sol impassível do verão, ele marretava a cunha na rocha. A pele alva quanto leite, enegrecida feito barro pelos anos de profissão. Seguia como uma máquina, sem cérebro, na posição de lótus, parecendo sereno como Gandhi. Já era o terceiro dia que trabalhava naquela rocha de granito. Seguia uma tradição: seu pai, o pai de seu pai, o bisavô, e por aí vai, foram todos graniteiros como ele.

            Como sempre, não havia resultado nenhum considerável em seu trabalho naquelas pimeiras horas. Seus músculos pareciam tentar lhe dizer algo, enquanto as mãos calejadas seguiam golpeando. Era provavelmente "Pare", mas ele continuava, como uma maldição.

            – Você quer suco? – disse a voz. Pensou que vinha de dentro, mas ao se virar viu o menino delgado, com fios de cabelo que pareciam barba de milho, segurando uma jarra suada com um líquido escuro gelado dentro e um copo de vidro.

            – Faria bem – ele respondeu. “Faria muito bem”. Seu suor denso como óleo parado no peito sugado.

            Ao longe, o que parecia uma menina lhe sorriu de cima da plataforma. Ergueu o copo cheio para ela e depois bebeu tudo. Era muito doce e tinha algum sabor de uva.

            A mulher e o menino observaram, sentados na sombra do pequeno telhado. Ela esperava com um cigarro e os pés descalços numa cadeira de madeira. Tinha no olhar uma espécie de sereno conformismo com o que via,

            Seu nome era Maitê, e ela estava constipada há um mês quando pediu por uma cura. Seus intestinos pareciam quebrados. A necessidade de se alimentar era uma tortura biológica, fazendo-a acumular, a cada dia, mais detritos em seu interior, inchando seu ventre como se estivesse grávida. 

            Tinha repulsa do próprio corpo, sentindo-se uma fossa séptica ambulante.

           Mas as coisas mudaram uma noite, quando, sentada de vestido na "pedra" — como Maitê chamava a rocha ígnea de toneladas — e sentindo em seu ânus o calor absorvido pelo dia de exposição à radiação do sol, ela implorou em voz alta por um expurgo.

            Apenas as estrelas e a lua, perdidas em seu cotidiano, foram testemunhas do que aconteceu ali. Quando o latejar começou e Maitê sentiu os movimentos em seus intestino grosso, de algo vivo como um peixe se debatendo num balde, lutando para escapar. E depois de tudo, ela nunca mais precisou duvidar de que o que entrasse por um lado sairia pelo outro.

           Foi uma surpresa para seu marido quando chegou do trabalho e se deparou com seu rosto parecendo uma máscara de sofrimento pela atividade extenuante, mas logo Maitê demonstrou estar aliviada e feliz, segurando um bebê fedorento numa toalha. 

            Os dois já haviam pensado em ter um filho, mas, mesmo com toda a falta de cautela, nunca tinha acontecido. Parecia impossível explicar como aquilo ocorrera exatamente, sendo que a jovem mãe também nada entendia, além da definição de "milagre"

           Depois disso, era compreensível que Maitê jamais deixasse que destruíssem sua pedra. E se enviassem outros graniteiros contra seu novo Deus, ela também os envenenaria sem hesitação.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

TEK BOND

            As costelas de Rafaela estavam aos poucos ficando mais visíveis sob a pele, e em seus banhos escaldantes, dos quais saía vermelha como o demônio, ela gostava de contá-las. Pensava no quanto cada vez menos de si existia no mundo. Estava ficando esquelética, mas não se importava com isso. Apenas uma esperança incômoda, de poder vislumbrar os lampejos da beleza que o mundo lhe negava, impedia que colocasse fim à própria vida. Já havia pendurado uma corda na garagem, em um gancho na pilastra de madeira, ao lado da prateleira onde encontrou a lata de cola para calçados. 

            O aroma agressivo da cola, uma mistura de notas químicas e metálicas, entre o doce e o áspero, a conquistou na hora... Nos dias em que se sentia bem, gostava de sair dos banhos e se sentar seminua nos fundos da casa, sentindo a aragem refrescante na pele e aspirando a lata dentro de uma sacola de supermercado.

            "Não gosto das pessoas...", murmurava para si, a voz fraca e perdida, o hálito impregnado. "Não, não gosto delas mesmo..."

            O futuro era sua massa de modelar multicolorida jogada no cesto de brinquedos, cada vez mais em tons escuros e com sujeira grudada desde que tirou da embalagem original – se desfazendo aos poucos.

            Estava sentada em um dos degraus dos fundos quando viu algo se mover na grama. Chegou a considerar ser efeito do produto que inalava. Caminhou descalça pela trilha que levava até a coisa que continuava se mexendo, evitando pisar nos espinhos.

            Perto da cerca, a cobra preta focava em hipnotizar um sapo parteiro não muito distante e não pareceu notar a aproximação. Com seus pequenos olhos cor de bronze, o sapo demonstrava resistir sem esforço ao feitiço da cobra.

            Rafaela enfiou a boca e o nariz dentro da sacola e aspirou com força. Nesse momento, o sapo se enterrou na areia e a cobra se contraiu como um músculo com câimbra. O réptil não esperava que o próximo movimento de Rafaela fosse agarrá-lo com uma das mãos, como se fosse um brinquedo jogado por ali, e se enrolou em seu antebraço, cobrindo o punho, não sabendo explicar o motivo de não tê-la picado no momento. Seu corpo turgido pareceu a Rafaela um pênis entre suas mãos macias.

            A cobra foi deixada na primeira gaveta do criado-mudo, em cima de uma edição com capa solta do evangelho de Alan Kardec, protetores auriculares e uma caixa aberta de Zolpidem. Ela se aquietou em um canto no fundo, espiralada, parecendo com uma calcinha embolada, faminta e desconfiada.

          O pai seria o primeiro a chegar, às 17h – Rafaela já sabia ver as horas –, e a mãe chegaria um pouco mais tarde do hospital, de mau humor e muito cansada, mas sem sono.

            À noite, Rafaela esperou ansiosa pelo grito que sairia do quarto no fim do corredor, para ver a reação do veneno, a expressão de dor e talvez a morte...  

             Porque não queria voltar para a escola.