Estava amuada, repousando em um mocho no canto entre as prateleiras, pensando por que estavam fazendo aquilo com ela.
Nos últimos dias, a empresa havia adotado o uso obrigatório dos uniformes e agora, depois de tanto tempo, ela tinha que usar aquela calça legging azul que ressaltava o imenso acúmulo de gordura acima da sua bunda encolhida. Estava deprimida, ainda mais do que o normal, pensando em tomar alguma atitude no caminho para casa, talvez jogando sua scooter debaixo do primeiro caminhão que encontrasse na contramão.
Na escola a chamavam de Betty, a Feia — da versão original, mexicana, a mais feia de todas. Até suas duas únicas amigas, a epilética e a de cara de avestruz, riam dessa piada. Além disso, como sua mãe não tinha muito dinheiro para roupas e ela estava em uma fase de crescimento avançado, principalmente para os lados, era famosa por deixar o cofrinho à mostra quando vestia suas calças baratas — e, às vezes, os meninos traziam moedas para depositar ali.
Como quem ri de si mesmo nunca precisa de motivo para sorrir, ela ria, e todos a consideravam bem legal na oitava série.
Trinta e três anos, solteira, sem amigos, morando com a mãe, sem formação profissional alguma ou planos de um futuro que a fizesse esquecer os traumas que carregava de uma adolescência de humilhações.
E ainda virgem.
Sua rotina era chegar em casa, conversar com a mãe, professora de literatura aposentada, e assistir reality shows enquanto comiam e fumavam sem parar na frente da televisão.
Tentava se convencer de que não precisava de mais nada, porque tudo o que a incomodava era não ser como os outros. Que, na verdade, eles tinham problemas bem maiores do que os dela: relacionamentos, disputas de ego, festas, ter que sair com amigos e se preocupar com namorados e afins. Pensava em como tinha sorte de ter uma verdadeira melhor amiga sempre ao seu lado.
Mas então… é mesmo isso a vida.
O lugar era cheio de placas de “Não Sentar Neste Local”. Ela acendeu um cigarro e sentou à sombra daquela coisa sem folhas que mal a protegia do sol. Pesquisou sobre a nova medicação. AstraZeneca. Seu nome era Stabilium, um ansiolítico/antidepressivo. Encontrou o depoimento de uma mulher no YouTube, que havia terminado um relacionamento de cinco anos e garantia não sentir nada graças ao remédio.
“Não sinto mais nenhum vazio interior, baixa autoestima, irritação… Ele me deu um brilho no olhar, um gás, um up; o sol brilha para mim. Meu corpo está leve e parece que nada mais pode me machucar… Minha vida está mais colorida, agora. A vida tem sentido porque eu sei que posso…”
Em casa, o espelho sujo refletia sua expressão melancólica, de olhos caídos, e todo o seu corpo flácido, nu.
Por que fazia esse tipo de coisa consigo mesma? A barriga volumosa pela semana de constipação, sua descoloração nada saudável da pele, os grandes peitos caídos parados no meio do tronco, como se fossem outra coisa, e os mamilos escuros como olhos mortos; e o cheiro de peixe estragado que subia do meio das suas pernas.
“Não é assim que devem ser.”
Uma corcunda em formação pela má postura.
“Eu devia me matar”, pensou pela milésima vez na vida.
Mas, em vez de se pendurar pelo pescoço no lastro da janela do quarto, Ellen engoliu um dos comprimidos controlados da caixa de remédio que afanara no trabalho e foi ficar com sua mãe, de pernas varicosas, fumando no sofá.
O psicólogo da escola já havia dito à sua mãe que seria recomendável que ela fizesse algumas consultas com outro profissional. Em casa, Ellen se trancava no banheiro para chorar pela manhã e se cortar com uma tesoura. Mesmo a mãe já havia comentado várias vezes a ideia de lhe dar “remedinhos” para melhorar.
Naquela noite, Ellen dormiu como um bebê e sonhou com Jesus Cristo. Na imagem do ator britânico Robert Powell, Cristo lhe disse que “Os mansos herdarão a Terra”.
Era difícil para ela dizer se havia algum efeito por causa do medicamento. Além de estar lavando os cabelos com mais frequência e de ter esvaziado seus intestinos naquela semana, numa torrente efervescente de dejetos amarelos, o que a fizera se sentir bem-disposta, não havia evidências claras dos efeitos do Stabilium.
Os dias da semana passaram mais rápido, e Ellen não pensou em suicídio. Podia ser algum efeito placebo, mas, se não fosse, havia encontrado uma maneira de seguir em frente. Começou a dar bom-dia e a se despedir das pessoas antes e depois de bater seu ponto e passou a pensar mais a respeito da religião em que fora batizada: o catolicismo romano.
Chegando em casa, ela se sentou e assistiu a um episódio de Botched com a mãe.
“Faça algo hoje pelo qual o seu eu do futuro ficará orgulhoso”, disse a mulher que fizera mais de 350 cirurgias plásticas na vida e agora precisava retirar selante industrial do rosto e dos quadris.
Ellen começou a treinar nos intervalos e percebeu o quanto a necessidade de usar o mocho diminuíra. Ela se questionava se Jesus Cristo era a resposta para tudo aquilo, ou se era o aumento da disponibilidade de neurotransmissores falando — e começava a querer fazer sexo.
Stabilium.
Ellen melhorou a interação com os colegas de trabalho, se voluntariando para passar o café e também servindo a todos. Percebeu que, assim, conseguia se destacar no grupo. Além disso, pensou, o crucifixo de prata que agora usava dependurado sobre a camiseta do uniforme fazia com que fosse vista com bons olhos pelos demais.
Em vez de uma pessoa antipática, rancorosa, sem graça e deprimida, talvez ela fosse apenas mal compreendida e estivesse passando por uma fase ruim.
Queria muito um pau.
Em casa, discutiram sobre a solidão da mãe. Disse a ela que estava sendo sondada para uma vaga melhor, no Recursos Humanos, onde não precisaria usar aquele uniforme ridículo. A mãe disse que ele lhe vestia muito melhor agora que estava malhando. Ellen disse que compraria um gato para fazer companhia à mãe.
Em pouco tempo, as pessoas no serviço esqueceram quem Ellen já fora. Assim são os seres humanos. Agora todos gostavam dela e a viam como a melhor pessoa da linha de produção.
A primeira caixa de Stabilium havia terminado. Descobriu que, caso comprasse o medicamento, cada caixa sairia na faixa de 200 reais, fora a consulta que precisaria ter com um psiquiatra para conseguir a receita.
Sentiu que alguns colegas estavam começando a lançar olhares lascivos para sua bunda e faziam comentários. Queria poder se aproximar deles, mas não tinha nenhuma experiência no assunto e eles também não demonstravam muita iniciativa. Passou a ter fantasias eróticas com estupro e ver vídeos de sexo brutalizado na internet todos os dias.
“O corpo alcança o que a mente acredita.” Ouviu isso de uma atriz na terceira temporada de Botched, que queria remover seis costelas para se parecer com uma fada de desenho animado.
Pensou que era como se, antes, ela não tivesse pele e, com a carne crua exposta ao sol, fritasse como bacon na frigideira. Agora havia se formado essa sombra, feita de densas nuvens e, olhando para cima, pudesse enxergar o vapor d’água condensado que era seu mundo.
Disse à mãe que começaria a procurar um lugar para morar sozinha. A mãe não gostou muito da ideia e disse a filha que ela não estivava ciente do quão trabalhoso era a completa independência.
O gato estava deitado no seu colo. Ele ainda não tinha nome. Era gordo e amarelo.
Sabia que, no fundo, a mãe tinha medo da solidão. Disse a ela que não se preocupasse, que seriam unidas para sempre. Isso a fez ficar em silêncio e deixar Ellen prestar atenção no programa.
Sua encomenda chegou.
Ellen mentiu que sua prótese peniana hiper-realista, com dupla camada beliscável, de 25,4 × 4,3 centímetros, era um romance de Hilda Hilst comprado na Amazon.
Novos relatórios de pesquisa apontavam que Stabilium diminuía as atividades da amígdala cerebral.
Outra colega começou a atrair atenção para a vaga no Recursos Humanos, com um sorriso mais simpático e sendo bem mais bonita, loira e magra, mesmo Ellen tendo perdido consideravelmente peso nos últimos meses. Em contrapartida, ela se tornou ainda mais prestativa, falando mais em Deus, mas não ao ponto de ser irritante como uma crente desmiolada, e os colegas pareciam gostar mais dela por isso.
Suas férias ficaram para dezembro e sua mãe planejou viajar com ela para visitar a Basílica do Divino Pai Eterno. Ellen respondeu que não. Naquela semana, a mãe insistiu tanto no assunto que a fez pensar que algumas pessoas velhas vivem tempo suficiente para que seus familiares desejem suas mortes.
Ellen estava no final do primeiro trimestre com Stabilium e tinha consulta marcada com um psiquiatra para conseguir o medicamento de maneira legal. Para continuar pagando o psiquiatra, a academia, o futuro apartamento e poder viver de maneira mais confortável, seria necessário conseguir aquela vaga.
No serviço, Ellen odiava profundamente todas as pessoas, mas continuava dizendo para que ficassem com Deus antes de bater o ponto. Considerava isso ser cristã de verdade. Além do mais, seguia imaculada como Nossa Senhora, embora sua vagina estivesse bem adaptada à entrada e saída de um falo enorme todas as noites.
Sua concorrente saiu do jogo depois de sofrer uma fratura linear extensa que causou hemorragia, ao rolar pela escadaria do segundo andar. Disse que as duas se esbarraram por acidente e demonstrou muito lamento ao rever as imagens na câmera de segurança mal posicionada na extremidade do pavimento.
“Treinar não fica mais fácil, é você que fica melhor!”, disse a atleta viciada em anabolizantes, que agora queria novas próteses mamárias, na quarta temporada de Botched.
Na consulta, seu médico estava relutante em lhe dar a receita, dizendo que havia evidências científicas bastante sólidas de que Stabilium causava menor conectividade no córtex pré-frontal ventromedial. Talvez fosse melhor experimentar duloxetina ou bupropiona. Mas Ellen insistiu que o medicamento era o único que a fazia se sentir uma pessoa normal e viva, que fazia coisas nela voltarem a funcionar como deviam — pensou no ventilador mecânico que mantinha Stephanie viva naquele momento.
Na academia, conheceu um homem mais velho, com corpo de pai de família e uma calvície tolerável, que lhe mandou uma mensagem de texto: “Motelzinho, hoje?”. Toda a experiência do sexo foi decepcionante, e não tanto pela comparação do pênis do sujeito com sua coleção de dildos, mas pela falta de coragem dele em explorar seu corpo como ela esperava.
Ela finalmente conseguiu a vaga de Analista de Remuneração e Benefícios.
Sua mãe chorou quando ela saiu de casa.
“Tudo isso vai ser seu quando eu finalmente morrer! Não tem por que você gastar com aluguel no centro!”
A mãe usava de tudo que conseguia imaginar para convencê-la a não deixá-la ali sozinha, naquele lugar, com o gato ainda sem nome, dizendo, entre outras coisas, que lhe daria um carro novo. Desde que seu pai morreu de um infarto fulminante, há quase duas décadas, não lembrava da mãe se envolver com mais ninguém e seu único relacionamento era com Ellen. Percebeu que a mulher dedicava seus dias a faxinas compulsivas que deixavam a casa limpa e alinhada enquanto seu corpo e psicológico viravam sucatas.
A filha acabou aceitando o carro oferecido pela mãe, mas se mudou mesmo assim. Estava tomando dois comprimidos de Stabilium por dia e se sentia no controle.
Em janeiro, os dias quentes davam o gostinho do inferno. Indiferente a isso, olhando através do vidro, ela escutava, sem demonstrar nenhum interesse, que a vaga de Coordenador de Recrutamento estava aberta e que, na sua opinião, não havia ninguém melhor do que ela mesma para preenchê-la.
“Estamos procurando alguém com formação ou que esteja cursando a área de Psicologia”, disse a chefe, uma mulher baixa, de corpo compacto e geométrico, que lembrava muito um Minion, lavando as mãos no banheiro feminino.
Ellen agora precisava encontrar alguma maneira de conseguir dinheiro para a maldita faculdade. Se conhecendo cada vez melhor ela sabia que não podia se permitir retroceder, porque isso acabaria com tudo!
Ela chorava enquanto subia as escadas com o gato. Quando chegou no apartamento, soltou o animal no zerbino, secou as lágrimas e sorriu. Tirou seus sapatos e jogou sua bolsa de couro envernizado em cima da mesa. A bolsa escorregou pelo tampo e caiu do outro lado, no tapete, aos pés do aparador com estatuetas de santos católicos. Seus pés enervados e suados deixaram pegadas que evaporaram no assoalho de madeira até o quarto.
Ao abrir a porta trancada do quarto, encontrou seu escravo do mesmo jeito.
O homem pequeno levou um susto ao acordar abruptamente no meio de um sonho em que fumava depois de anos de abstinência. No sonho, a fumaça o sufocava como um líquido entrando pela garganta; na realidade, era sua própria saliva acumulada na máscara de vinil.
“Preciso que enterre uma coisa para mim.”
O escravo não podia ver nada, nem falar por causa da máscara, e respondeu com um ruído que tanto podia dizer “sim” quanto “não”. Estava nu, preso com cordas de algodão e tinha uma spreader bar entre as pernas peludas. Usava um separador de escroto que mantinha seus testículos afastados, deitado sobre um lençol vermelho de privação sensorial.
Apoiando-se na cabeceira acolchoada, Ellen esfregou o pé esquerdo em seu rosto e lembrou das palavras de Jesus Cristo: “Os mansos herdarão a Terra.” Depois começou a soltar seus nós constritores, retirando antes o plugue ergonômico do sujeito, que já estava lá por mais horas do que o recomendado. Mas que graça havia no recomendado? — era o que ela pensava.
Quando conseguiu se sentar na beirada da cama, mesmo depois de arrancar a máscara, seu escravo ainda sentia cheiro de gorgonzola.
Ellen decidiu que o gato se chamaria Jack.
Sobre a cômoda, uma caixa de tarja preta aberta, Stabilium, que estava subindo rapidamente no ranking dos medicamentos mais vendidos, já tendo superado os reguladores de colesterol.