domingo, 11 de maio de 2025

O GATO AZUL

              Leon amava o boxe.

            Nos seus melhores dias no hospital, quando a miséria e a dor lhe davam folga, ele se lembrava dos velhos tempos e desejava poder socar alguém de novo. Sabia que era tarde demais — era uma carcaça de si mesmo, sem chance de voltar atrás —, mas gostava de sonhar que poderia ter sido famoso. Fora um lutador canhoto e rápido para sua categoria. Seu problema é que também era mau demais. Ser mau é indispensável no boxe, mas, em excesso, estraga a vida do lutador como sal demais na comida.

            Das máculas na vida de Leon, a que mais o fazia sofrer no leito de morte era a ocorrida nos primeiros anos da vida. Achava estranho como as coisas funcionavam, mas era verdade, lembrar do seu gato de estimação era sua tortura naquela cama rançosa de hospital. Tentava se tranquilizar, aceitando que era uma criança na época. Querendo ou não, a verdade é que somos obrigados a superar os traumas do passado, muito mais do que morto.

            Mas o gato persistia.

            Ele costumava amassar pão em seu rosto quando a mãe o deixava entrar de manhã. O pequeno Leon o colocava debaixo das cobertas para se esquentar, e o bicho ronronava em seu peito e dormia. Seu nome era Jimi, pelo que ele se lembrava. Um gatinho cinzento/amarronzado, meio siamês, de olhos vesgos e talvez azuis, que gostava de escalar as coisas com as garras afiadas e correr atrás da criança por alguma razão.

            Um dia, Leon achou que Jimi ficaria muito engraçado se fosse pintado de azul. Quando encontrou a tinta na garagem, foi a primeira coisa em que pensou. E com mais ou menos 6 anos, ele não tinha a mínima ideia do que era intoxicação química ou edema pulmonar grave, e quase nada sabia sobre como funcionava a morte.

            – Olha o que seu filho fez com a merda do gato!

            Essas foram as palavras da mãe, segurando pelo rabo o trapo azul e encharcado de tinta óleo que se tornara Jimi. Elas ficaram em sua cabeça. Sempre que lembrava delas, uma espécie de descarga elétrica percorria seu corpo e fazia uma careta.

            – Coloca esse negócio no lixo de uma vez – disse seu pai, jantando na mesa da cozinha.

            Leon ia e espiava Jimi sendo soterrado por imundices no cesto de lixo. Borra de café, restos de comida, um maço amassado de Charm...

            No outro dia Jimi não estava mais lá.

            E toda vez que pedia por um animal de estimação, fosse da espécie que fosse, a mãe sempre lembrava de Jimi. Ela descrevia sua morte angustiante, se contorcendo, de maneira rica em detalhes: o urro bilioso, as convulsões do organismo lutando para eliminar os agentes tóxicos, terminando com os tremores da asfixia. 

            Sua mãe era uma atriz de entrega absoluta.

            Talvez por isso tenha escolhido o boxe, porque era um esporte que ajudava a acalmar questões internas. Claro que também gostava da beleza do contraste brutal entre o instinto e a técnica, que melhorou sua coordenação, tendo ele crescido em estatura muito rapidamente. E por muito tempo o boxe serviu como uma forma de ter mais autocontrole. Leon se tornou um dos dois melhores pesos-cruzadores da academia. Estava prestes a disputar o torneio municipal quando assistiu ao filme Rocky, Um Lutador no cinema, e as coisas em sua vida mudaram. 

            Na cena em que Balboa espanca uma carcaça de boi no frigorífico, nasceu ali um demônio da perversidade — um pensamento larval e pruriginoso que passou a habitar seu cérebro e a instigá-lo tanto que saiu sem saber o resultado da luta.

            Andava pela rua pensando naquilo. Talvez a polidez das convenções sociais e instituições fosse um problema no boxe. Ao mesmo tempo em que sofria com medo de estar ficando louco, sentia uma força incontrolável dentro do peito. Era como se uma corrente invisível estivesse arrastando seu espírito para um lugar de ambiguidade, entre sua perdição e salvação.

            Depois de algumas semanas, Leon nunca mais pôs os pés em uma academia de boxe.

            Sua mãe morreu no inverno. Em meio à confusão e ao delírio provocados pelo tratamento inútil, durante o derrame pleural que foi o golpe final, ela lhe pareceu imitar, pela última vez, o gato Jimi morrendo.

            Se aquilo fosse a prova da existência de um deus punitivo, Leon pensou, ele estava condenado. Na época seu testículo esquerdo tinha o triplo do tamanho do direito. Tentou se tranquilizar com a ideia de que talvez Ele apenas gostasse de gatos e não se importasse, necessariamente, com as vidas em geral. Agora tinha uma família e duas filhas para se preocupar.

            Quando a mais nova o visitou com os netos, no que seria mais um dia no vazio dos últimos dias da vida, tentou contar sobre Jimi. Começou dizendo que azul sempre fora sua cor favorita, e um dos netos disse que também era a favorita dele.

            O menino lembrava um pouco ele mesmo na sua idade, com uma cicatriz no meio da testa polida, provavelmente causada por uma danadice.

            "Nunca pinte seu gato", Leon gostaria de ter dito, mas a falta de dentes o fazia ser impossível de compreender.

            – Agora nós temos que ir, papai. Deixei as compras no carro e estacionei em uma vaga debaixo do sol – disse a filha de modo gentil e indiferente.

            Ele sempre preferiu a mais nova, mas gostava das crianças.

            – Dá um beijo do vovô.

            A menina se inclinou e beijou sua careca marrom.

            – Você também!

            O menino fez cara de nojo e riu com repulsa para o homem na cama.

            Leon amava o menino.

            A maioria das pessoas acha deprimente um moribundo sozinho no quarto, mas estar em uma condição onde você pode praticar estar morto era relaxante para Leon. Imaginava-se fora dali, livre em um caixão lustroso, com algumas pessoas ao redor, e depois derretendo a sete palmos de terra.

            – Você é um cara muito esquisito, mas eu te amo mesmo assim – disse sua esposa, Antônia, uma vez.

            Estavam sentados na namoradeira, sob a luz do sol, fumando e falando sobre pedofilia.

          A mulher ainda não tinha começado com os delírios paranoides e alucinações auditivas, dizendo que haviam ratos, baratas e aranhas na cama, e um invasor noturno na casa que queria matá-la.

            Leon também amava a esposa. Gostaria de ter sido um homem mais generoso com as palavras e dito isso a ela mais vezes.

            – Eu não sou estudado, mas acho que todo mundo tem uma coisa ruim dentro de si… tipo uma vontade de destruir, de machucar. Quando seguramos demais, isso começa a vazar de um jeito torto… Tem gente que vira amarga, outros explodem do nada, tem quem desconta em bicho, em criança, ou até em si mesmo – Leon continuava.

            – Por isso você matou aquelas mulheres? – a esposa intenrrompeu.

            Leon ficou calado, encarando a cerca viva.

            Aos 25 anos ele começou a espreitar jovens em viagens noturnas de ônibus. Naquele tempo era mais fácil, porque na década de 80 não havia tantas câmeras. Em um canto escuro, sua figura negra conseguia ser esquecida pelos motoristas através do retrovisor.

            Ele as despia por completo e as amarrava com uma corda pelos cabelos aos dedões dos pés, formando um arco que elevava a mais ou menos um metro e meio do chão. Balançando os braços naquela posição e com os rostos distorcidos, as mulheres eram como figuras alienígenas tentando se esconder da exposição.

       Seus dedões acabavam deslocados por causa dos golpes, e um deles era sempre o primeiro a escorregar, fazendo-as parecer com bailarinas suspensas em arabesque, flutuando sobre uma poça das secreções. 

            Nesses momentos, ele às vezes parava de bater nelas, apenas para contemplá-las e chorar.

            – A mãe está certa, eu não posso ter um animal de estimação – Leon sempre dizia, no final.


            Quando o pequeno estudante de enfermagem entrou no quarto para aspirar as vias aéreas de Leon, não conseguia garantir se o que via era um sorriso banguela, mas foi bom imaginar que era, de fato, um sorriso naquele rosto. O jovem sabia que era assim que se encerravam as vidas humanas. Era daquelas pessoas que buscam sempre ser positiva e pensar que o importante era amar e deixar marcas por onde passasse. Acreditava no dharma do hinduísmo.

            – Porra, esse cara morreu! – percebeu ao tocar Leon, naquele momento gelado como um túmulo.

            O enfermeiro começou a aspirá-lo, com medo de receber a culpa por aquilo.


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