O aroma agressivo da cola, uma mistura de notas químicas e metálicas, entre o doce e o áspero, a conquistou na hora... Nos dias em que se sentia bem, gostava de sair dos banhos e se sentar seminua nos fundos da casa, sentindo a aragem refrescante na pele e aspirando a lata dentro de uma sacola de supermercado.
"Não gosto das pessoas...", murmurava para si, a voz fraca e perdida, o hálito impregnado. "Não, não gosto delas mesmo..."
O futuro era sua massa de modelar multicolorida jogada no cesto de brinquedos, cada vez mais em tons escuros e com sujeira grudada desde que tirou da embalagem original – se desfazendo aos poucos.
Estava sentada em um dos degraus dos fundos quando viu algo se mover na grama. Chegou a considerar ser efeito do produto que inalava. Caminhou descalça pela trilha que levava até a coisa que continuava se mexendo, evitando pisar nos espinhos.
Perto da cerca, a cobra preta focava em hipnotizar um sapo parteiro não muito distante e não pareceu notar a aproximação. Com seus pequenos olhos cor de bronze, o sapo demonstrava resistir sem esforço ao feitiço da cobra.
Rafaela enfiou a boca e o nariz dentro da sacola e aspirou com força. Nesse momento, o sapo se enterrou na areia e a cobra se contraiu como um músculo com câimbra. O réptil não esperava que o próximo movimento de Rafaela fosse agarrá-lo com uma das mãos, como se fosse um brinquedo jogado por ali, e se enrolou em seu antebraço, cobrindo o punho, não sabendo explicar o motivo de não tê-la picado no momento. Seu corpo turgido pareceu a Rafaela um pênis entre suas mãos macias.
A cobra foi deixada na primeira gaveta do criado-mudo, em cima de uma edição com capa solta do evangelho de Alan Kardec, protetores auriculares e uma caixa aberta de Zolpidem. Ela se aquietou em um canto no fundo, espiralada, parecendo com uma calcinha embolada, faminta e desconfiada.
O pai seria o primeiro a chegar, às 17h – Rafaela já sabia ver as horas –, e a mãe chegaria um pouco mais tarde do hospital, de mau humor e muito cansada, mas sem sono.
À noite, Rafaela esperou ansiosa pelo grito que sairia do quarto no fim do corredor, para ver a reação do veneno, a expressão de dor e talvez a morte...
Porque não queria voltar para a escola.
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