sexta-feira, 1 de novembro de 2024

TEK BOND

            As costelas de Rafaela estavam aos poucos ficando mais visíveis sob a pele, e em seus banhos escaldantes, dos quais saía vermelha como o demônio, ela gostava de contá-las. Pensava no quanto cada vez menos de si existia no mundo. Estava ficando esquelética, mas não se importava com isso. Apenas uma esperança incômoda, de poder vislumbrar os lampejos da beleza que o mundo lhe negava, impedia que colocasse fim à própria vida. Já havia pendurado uma corda na garagem, em um gancho na pilastra de madeira, ao lado da prateleira onde encontrou a lata de cola para calçados. 

            O aroma agressivo da cola, uma mistura de notas químicas e metálicas, entre o doce e o áspero, a conquistou na hora... Nos dias em que se sentia bem, gostava de sair dos banhos e se sentar seminua nos fundos da casa, sentindo a aragem refrescante na pele e aspirando a lata dentro de uma sacola de supermercado.

            "Não gosto das pessoas...", murmurava para si, a voz fraca e perdida, o hálito impregnado. "Não, não gosto delas mesmo..."

            O futuro era sua massa de modelar multicolorida jogada no cesto de brinquedos, cada vez mais em tons escuros e com sujeira grudada desde que tirou da embalagem original – se desfazendo aos poucos.

            Estava sentada em um dos degraus dos fundos quando viu algo se mover na grama. Chegou a considerar ser efeito do produto que inalava. Caminhou descalça pela trilha que levava até a coisa que continuava se mexendo, evitando pisar nos espinhos.

            Perto da cerca, a cobra preta focava em hipnotizar um sapo parteiro não muito distante e não pareceu notar a aproximação. Com seus pequenos olhos cor de bronze, o sapo demonstrava resistir sem esforço ao feitiço da cobra.

            Rafaela enfiou a boca e o nariz dentro da sacola e aspirou com força. Nesse momento, o sapo se enterrou na areia e a cobra se contraiu como um músculo com câimbra. O réptil não esperava que o próximo movimento de Rafaela fosse agarrá-lo com uma das mãos, como se fosse um brinquedo jogado por ali, e se enrolou em seu antebraço, cobrindo o punho, não sabendo explicar o motivo de não tê-la picado no momento. Seu corpo turgido pareceu a Rafaela um pênis entre suas mãos macias.

            A cobra foi deixada na primeira gaveta do criado-mudo, em cima de uma edição com capa solta do evangelho de Alan Kardec, protetores auriculares e uma caixa aberta de Zolpidem. Ela se aquietou em um canto no fundo, espiralada, parecendo com uma calcinha embolada, faminta e desconfiada.

          O pai seria o primeiro a chegar, às 17h – Rafaela já sabia ver as horas –, e a mãe chegaria um pouco mais tarde do hospital, de mau humor e muito cansada, mas sem sono.

            À noite, Rafaela esperou ansiosa pelo grito que sairia do quarto no fim do corredor, para ver a reação do veneno, a expressão de dor e talvez a morte...  

             Porque não queria voltar para a escola.


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