Em Suzdal, sua cidade natal na Rússia, a diversão favorita de Androva Smirnova era brincar de mãe com suas kuklas nos fundos da casa. Quando fosse adulta, depois de casar com seu príncipe encantado, dizia que teria muitos filhos. Na época, ela acreditava que os bebês meninos nasciam em repolhos e as meninas eram encontradas em rosas. Mesmo mais tarde, quando Androva soube dos horrores da gestação, com toda sanguinolência e evacuação involuntária no parto, seu desejo de ser mãe continuou pulsando dentro dela como uma infecção purulenta.
Estava com suas bonecas sob a sombra das sorveiras, até que o cheiro forte de amônia na cabine de janelas fechadas a tirou do estado catatônico.
Percebeu o homem ao seu lado. Ele precisava de elevação extra para o assento do motorista, usava boné de brim azul, parecia muito jovem, tinha óculos de grau e um retrognatismo agressivo debaixo do cavanhaque. A faca enorme, estilo Rambo, empunhada em sua mão direita, a fez desconfiar de que não estava ali por vontade própria.
Androva começou a lembrar da pintura vermelha daquele caminhão Scania, dos desenhos de girassóis sorridentes na porta do carona e das palavras do médico:
— Intoxicação por mecônio é quando as fezes do feto estão no líquido amniótico...
No hospital, a tinham prendido na cama com cintas nas mãos e nos tornozelos para conter seu surto violento depois da notícia. O esvaziamento uterino aconteceria na madrugada, horas depois da constatação da morte do bebê.
Quando entraram numa estrada de chão batido, estreita e sem nenhuma iluminação, ela pensou: "É minha hora de morrer..."
No meio do mato, escondia-se uma pequena construção com tijolos podres e esburacados.
O pânico a fez rir do visual do outro com a lanterna na cabeça. Os dois entraram no que lhe pareceu uma obra interrompida de um quarto infantil. Havia um pedaço de espuma encardido no chão, tipo colchonete, e uma corrente com cadeado num vergalhão descoberto na parede, onde ela foi presa pelos pulsos.
Androva nem pensou em resistir.
O rapaz cortou suas roupas e a marcou com um "X" na barriga, antes de sair para soltar os porcos do caminhão. Na escuridão, ela sentiu o sangue escorrer dos cortes pela coxa e molhar sua meia branca.
O lugar fedia, e a jovem pensou em carne podre e merda. Chorando na escuridão, em um momento de mais lucidez, torceu para não ter matado o marido com o jarro d’água.
No quarto do hospital, Androva havia descoberto que, com esforço, conseguia escorregar as mãos das cintas de contenção. Era só se concentrar, colocar o dedão entre o mindinho e o dedo anelar, e girar a mão com um pouco de jeito...
Quando a oportunidade surgiu, ela se levantou e acertou o marido pelas costas com a jarra. Esperava que o vidro da jarra se quebrasse, mas, em vez disso, sentiu a cabeça do homem amortecer o impacto.
— Não vou deixar que tirem meu bebê de mim — disse ela.
O príncipe encantado tremilicava no chão do quarto.
Quando as fortes dores das contrações começaram, ela foi obrigada a se deitar na espuma imunda. A imagem de um tronco sendo rachado no meio por um machado lhe ocorreu. O que sentiu não era algo que pudesse descrever. Diria que era como sobreviver a uma tortura mortal...
Incontáveis vezes ela imaginou o rostinho redondo da criança no seu colo. Os médicos queriam tirá-lo dela, mas ela não deixaria acontecer. Por mais que um filho estivesse morto, ainda pertencia à mãe.
A criança, lambuzada de sangue em seus braços, era perfeita. Um bebê completo, troncudo e careca, com um pequeno aparelho reprodutor que se parecia com uma castanha. Ele estava inegavelmente morto.
Abriu os olhos do bebê para ver se eram azuis como os dela. Eram de um branco leitoso e desalmado, que a fizeram começar a chorar. Percebeu que havia parido um boneco hiper-realista, não um ser humano de verdade.
Do lado de fora, o caminhoneiro colocou os porcos no cercado e depois os alimentou com farelo de milho. Não acreditava na sorte de ter encontrado aquela ruiva grávida e desvairada andando sozinha na marginal. Lavou as mãos e o rosto na torneira solitária do lado de fora e depois se despiu completamente. Tinha a superfície da cabeça totalmente sem cabelos, apesar da pouca idade.
Ele olhou para seu pênis flácido e lhe deu um tapa forte.
— Não faz falta. Minha amiga bem afiada resolve tudo por aqui — disse.
Enfiou um pouco de pó na narina direita e levou a ampola com o resto do que sobrara. Gostava de cocaína quando enfiava a faca em alguém. Pressentia que conseguiria ter um vislumbre do Paraíso naquela noite. Nunca havia carneado uma grávida.
Por alguns segundos, parado em frente à porta, o homem despido pensou se não seria melhor esperar pelo sol. Resolveu abrir a porta com um pontapé e começar tudo de uma vez.
Androva o acertou bem no meio do rosto assim que ele entrou.
Como no hospital, a mulher havia conseguido se soltar das correntes. Quando seu sequestrador virou de costas, outro golpe o atingiu no pescoço, soando como uma palmada bem forte.
A sensação era como estar sendo golpeado com um peixe grande e molhado. Ele ficou desnorteado com a dor e, mais de uma vez, quase caiu. Seu rosto sangrava pelo óculos amassado na cara.
— Para! Para, por favor! Eu juro que vou fazer o que você quiser… — gritava, perdido, apunhalando o ar com a faca.
Quando conseguiu juntar os óculos do chão e ver o que estava acontecendo, através de flashes da lanterna na cabeça, ficou ensandecido com a imoralidade que estava presenciando. Tanta, que seu maior desejo naquele momento passou a ser esfaquear Androva duas mil vezes no seu rosto oval e sem graça.
Ele avançou para cima dela, mas, descontrolado, acabou escorregando no tampão mucoso e na placenta, caindo de cabeça no chão.
A luz da lanterna iluminou o rosto assustado de Androva no canto. Não usava mais o bebê como arma e agora o tinha desconjuntado nos braços.
— Eu vou te matar... Vou te matar muito por isso, sua puta maldita...
Sentindo-se pequeno e indefeso, ele tentou se levantar, mas não conseguiu. Tateou a perna direita e encontrou um corte profundo no interior da coxa, onde havia caído sobre a lâmina de sua faca.
O sangue lhe escapava em profusão. Sua sensação de frio aumentou rapidamente. Não queria acreditar que iria morrer.
Quando viu sua ampola de droga no chão, esticou-se para pegá-la, mas a mulher viu o que ele pretendia e foi mais rápida: esticou a perna e pegou a droga com o pé.
Ela abriu a ampola, pronta para despejar fora. Os olhos do homem brilharam no escuro. Então, ela teve uma ideia melhor: aspirou a cocaína com toda a força dos pulmões.
Seu cérebro se acendeu como uma lâmpada de halogênio. Ficou em pé, disposta e eufórica. Não sentia frio ou dor — apenas o sangue escorrendo pelas coxas feito mijo quente.
Muito agitada e piscando sem parar, Androva sentiu que precisava sair dali. Foi quando o pranto do bebê ecoou pelo lugar. Ele a chamava em algum canto.
Aquele som deu alguns segundos de sobrevida ao moribundo de olhos esbugalhados.
Dando-se conta de que havia deixado o filho cair no escuro, a russa começou a recolhê-lo pelo cordão umbilical.
Agora sim, história show! 8/10
ResponderExcluirMuito obrigado!
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