Oliver começou a sentir fome. A água havia acabado há algumas horas e o que sobrava do pacote de amendoins japoneses também.
Ainda movendo-se pela inércia na órbita baixa do planeta, ele via, já entediado, através da janelinha, o imenso corpo vivo suspenso na escuridão. Massas de nuvens rodopiavam suavemente em espirais brancas, densas como algodão e vastas quanto continentes, e os pedaços de terra eram iguais a antigas pinturas craqueladas refletindo a luz do Sol que passava. Despersonalizado como nunca, no silêncio total, Oliver abraçava as pernas em posição embrionária, sem enxergar sinal de vida por onde passava, algum lugar sobre a Europa Meridional.
Sentiu sua pequena nave caseira começar a se arrastar pela atmosfera. Ela perdia órbita e logo seria levado a um processo brutal de destruição na reentrada, quebrando-se no ar a oito quilômetros por segundo e derretendo a três mil graus Celsius, virando poeira, plasma e partículas metálicas antes de chegar no chão. Acomodado em parte de um assento de uma Kombi, ele tentava relaxar para evitar as câimbras e aproveitar com o máximo de calma cada respiração. Muito provavelmente, o processo de destruição seria tão violento que Oliver não sentiria dor. Tentava pensar positivo.
Não foi difícil para ele fazer tudo aquilo. E ele nem tinha o ensino médio completo; apenas era um cara que, desde pequeno, se interessava — daquelas crianças que desmontam tudo, mas que, diferente da maioria delas, conseguem montar de novo e também consertar coisas. Próximo do seu aniversário de dezoito anos, sem a ajuda de ninguém, Oliver resolveu começar seu maior projeto da vida até então: a construção de um veículo lançador espacial.
Foram necessários seis anos para construir a cápsula e o foguete, que chamou de Deise. A coisa não era seu sonho de infância nem nada do tipo; ela apenas aconteceu na sua vida, de repente. Como a criação de um conto literário, decolou com centenas de litros de hidrazina (N₂H₄) acumulados durante dois anos de compras clandestinas. Ele decolou na primavera e cruzou a Linha de Kármán em menos de seis minutos, contados em seu cronômetro digital da Shopee.
Ninguém acreditava na sua capacidade para aquilo — na verdade, não se importavam — e Oliver sempre repetia que não estava nem aí para ninguém. Ele cresceu cercado pelas montanhas de sucata de sua família acumuladora: geladeiras antigas, canos, restos de bicicletas, chapas de ferro retorcidas, molas enferrujadas, restos de motores, cabos elétricos, calotas velhas de carro, mangueiras plásticas endurecidas, baterias de carro vazando… Todo tipo de coisa quebrada, distante das contrapartes, desfazendo-se no tempo, na chuva, mortas e permanecendo, e tentou usar tudo no seu projeto de chegar até o espaço.
Tudo era serenidade, até que Oliver começou a entrar em desespero. Pior do que a depressão da conquista, era a percepção evidente de estar caindo para a morte. Queria que pelo menos sua namorada soubesse que ele tinha conseguido.
Sua namorada estava internada em um hospital psiquiátrico havia alguns meses. Ele ficou sabendo quando ligou para a casa dela, depois de ficarem semanas sem trocar mensagens. Ela teve um surto psicótico, os pais disseram. Algo que os médicos chamaram de Delírio Paranoico de Infestação com Temática Sexual. Perguntou quando ela estaria de volta e não souberam dizer. Talvez no Natal. Quando a mãe perguntou quem falava, ele desligou.
A nave começou a esquentar e os parafusos estavam se rompendo. Bolhas se formaram em sua pele e não conseguia respirar. Tudo foi tão rápido que percebeu o primeiro sinal de dor apenas depois dos olhos começarem a escorrer pelas bochechas assadas. Oliver se contraiu como uma sacola plástica no fogo e de repente tudo explodiu em pedaços...
As notícias repercutiriam, pensou no último segundo, seu cérebro borbulhando na caixa craniana enegrecida. Seu primo viu o que ele fez e, com certeza, a SSN (Rede de Vigilância Espacial dos EUA) também. Seria conhecido para sempre como o homem que fez um foguete e foi ao espaço usando apenas lixo e inteligência.
Lixo e inteligência.
Mas primeiras notícias que saíram foram sobre a queda de um dos seus boosters laterais, motores auxiliares do foguete, sobre uma creche em Valparaíso, no Chile, matando cinco professoras, 21 crianças e ferindo outras mais.
Naquele dia Paola acordou tranquila, com sua cabeça raspada de modo desordenado por ela mesma, parecendo a boneca remelenta de uma criança bem inventiva.
Ela bocejou e sorriu com seus dentes amarelados e de olhos ainda fechados, com o sangue repleto de antipsicóticos e antidepressivos. Havia tido um sonho estranho em que Oliver a levava para visitar um monastério budista e, caminhando pelos pátios de pedra, os dois falavam sobre política e circuitos integrados flip-flops.
Paola se cobriu até o pescoço com a limpíssima coberta branca do sanatório particular em que estava, sentindo o gostoso cheiro asséptico de produto de limpeza industrial no tecido.
Do outro lado do vidro da janela, um minúsculo brilho no céu.
Incrível 😍
ResponderExcluirMuito obrigado pelo elogio. 🥰
ExcluirSDDS PEDREIRA <3 #SMART #MELHORFUNCIONARIO
ResponderExcluirMuito obrigado! Também estou com saudades! 🥰
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