Talvez a única coisa que tenha aprendido de verdade com o pai, um homem cego que vinha sendo podado ao longo dos anos por causa da diabetes, era que a gente se acostuma com as coisas. Era o que Vitor tentava fazer. Porque a beleza não é tudo, repetia a si mesmo, por mais que Mariana nunca houvesse tido uma grande personalidade.
— Como você consegue ficar encarando aquela coisa, cara?!
Arthur se referia ao rosto da menina sentada na cama.
Cansada da vida, Mariana havia enfiado o cano de uma arma na boca e puxado o gatilho, sem esperar nada além da morte. Mas acabou colocando o cano muito inclinado e errou o cérebro, ficando sem o rosto...
É difícil explicar a vontade de viver que nasce nas pessoas após uma tentativa de suicídio malsucedida.
Para ajudar, Vitor costumava aprender truques de mágica e praticar com ela, para vê-la sorrir do seu novo jeito. Era o que estava fazendo quando o amigo chegou.
Arthur disse que tinha um gato no saco dentro do porta-malas. O animal havia ficado violentíssimo depois da castração e, por isso, não era mais estimado pela família. Insistiu em companhia para largá-lo na estrada.
Por ordens do psiquiatra, Mariana não podia ser deixada sozinha.
Vitor certificou-se de que Mariana estava bem presa ao cinto de segurança, enquanto Arthur olhava pelo retrovisor com seu sorriso dentuço. O casal viajou de mãos dadas, em silêncio, no banco de trás, aproveitando frescor do dia ensolarado que entrava pela janela. Estava sendo prazeroso para Mariana, e ela pensou que talvez não fosse ser um passeio tão ruim.
Mas as coisas começaram a fugir do controle depois que entraram em uma estrada paralela, quando Arthur tirou o saco com o gato para fora da janela e começou a girá-lo no ar à medida que acelerava cada vez na estrada de chão. A poeira irritou os olhos desprotegidos de Mariana, que tinham que ser lubrificados com uma espécie de colírio especial a cada meia hora.
— Larga esse bicho agora, cara! Você não tá vendo que ela não tá curtindo essa brincadeira?
Arthur batia o saco na lataria, e fazia piadas sem graça sobre as sete vidas de um gato, sendo possível ouvir os grunhidos que saíam lá de dentro. Até que o saco acabou se rasgando, e algo peludo se soltou de dentro e escalou pelo braço do rapaz até sua cabeça.
— Ele... ele vai me matar! Alguém, por favor, ajuda... façam alguma coisa! Meu Deus, por favor!
Era muito engraçada aquela trapalhada. Uma secreção amarelada escorria das fossas nasais abertas de Mariana à medida que ela ria. Até o motorista erguer o braço e todos verem que ele estava sem a mão direita.
Preso à imagem do osso saindo da carne, o rapaz abandonou suas responsabilidades no volante. Quando perceberam, estavam descendo uma ribanceira e acertando uma velha figueira no mato.
Na cama de hospital, Vitor começou a lembrar de ter acordado em algum momento entre os bancos da frente e ver o amigo com o rosto enfiado no painel de instrumentos. Tentou espiar o banco de trás para ver como a namorada estava, mas não a encontrou. No hospital, Mariana garantiu que se salvou graças ao cinto de segurança.
Sua namorada revelou que o que havia no saco não era, na verdade, um gato, mas uma criatura mágica chamada Sludgebelch.
Vitor pediu que ela repetisse toda história, com medo de que estivesse confuso por causa das fraturas cranianas.
A pequena criatura de nariz grande e orelhas pontudas, coberta de pelos crespos e azulados, havia sido raptada com um truque sujo — o tipo de coisa que quase ninguém levaria a sério a ponto de fazer. Depois de passarem um tempo esperando ajuda, Sludgebelch disse a ela que, mesmo não sendo das criaturas mágicas mais poderosas, concederia um desejo a ela.
O pedido da namorada havia sido um rosto novo. Mas não era exatamente novo, ela explicou.
Passando os dedos, o rapaz percebeu a linha fina, quase invisível, que circulava o rosto, com uma leve mudança de tonalidade. Parando próximo ao ângulo da mandíbula, reconheceu o pedaço do caractere chinês da tatuagem do amigo. Em seguida, reconheceu seus olhos castanhos.
A felicidade por ter ganho um rosto foi tanta que ela queria fazer algo por Sludgebelch.
A criatura disse que o que mais queria eram seus testículos de volta. Respondeu a ele que arranjar um par de testículos não seria possível. Então, entraram em comum acordo de que seria apenas um.
A namorada prendeu a densa cabeleira de fios pretos, grossos como linha para sapato, e tirou uma tesoura pontuda do bolso do casaco. Garantiu ao namorado que não precisava se preocupar, porque já estavam no hospital.
Quando sentiu a ponta da tesoura tocar seu escroto, seu namorado percebeu que estava sem nada por baixo. Ia gritar por socorro, mas a moça foi mais rápida e enfiou o punho em sua boca.
— Depois podemos praticar truques de mágica.
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